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Grey's Anatomy e a política do ¯\_(ツ)_/¯

Ensaio de Raquel Parrine

Este texto contém todos os spoilers possíveis e imagináveis da série Grey’s Anatomy, até a 12a temporada.

Ninguém sofre como um personagem de Grey’s Anatomy. Teve atropelamento e desfiguração, teve atirador solto no hospital, teve acidente de carro, teve abuso materno, teve veterano de guerra com estresse pós-traumático, teve amante esperando transplante de coração, teve um monte de aneurisma, teve madrasta morrendo de soluço, teve irmã surpresa, teve demência, teve festa de graduação no hospital, teve parto de emergência, teve alcoolismo, teve abuso infantil, teve problemas de adoção, teve sobrancelha raspada no dia do casamento. Havendo esgotado o catálogo de desgraças, na décima primeira temporada a galera apelou para um acidente de avião que matou boa parte do elenco. A partir daí, a série se tornou uma esgarçamento apelativo de um enredo que desde o princípio já tinha uma mão pesada para o drama. É nesta perspectiva de xepa de Netflix que eu assisti à décima segunda temporada de Grey’s Anatomy, só para ver de qual é do futuro de (outrora) grandes personagens singulares que a Shonda Rhimes teve as manhas de criar e um casting que foi multipremiado pela sua diversidade, trazendo para o público (às vezes pela primeira vez) histórias que não apareciam de outra forma no horário nobre da TV a cabo (ou no horário nobre do meu netflix). Duas dessas personagens são a Arizona Robbins e a Calli Torres, um dos casais lésbicos mais queridos do mundo. A gente assistiu a Calli se apaixonar e se casar por um cara que não ligava pra ela, morar nos fundos do hospital, dançar de calcinha e finalmente dar uma espetacular volta por cima que envolveu o longo e difícil processo de se encontrar como uma mulher bissexual. Desde a perspectiva heterossexual, é profundamente educativo ter empatia por um processo tão alheio como este. As confusões da Calli, o sair do armário, o enfrentar a família católica – mas, principalmente, o lidar com as suas próprias pré-concepções de si mesma – foram momentos poderosos da televisão. E aí teve o relacionamento com a Arizona, uma pessoa que cresceu com a sua identidade lésbica muito clara, que deu a nós uma perspectiva múltipla desse processo de ser lésbica na sociedade. Quer dizer, a série nos ensina que nem toda mulher lésbica passa por um processo duro de autoafirmação: existem várias formas de lidar com isso, várias identidades, várias possibilidades. Calli encontrou em Arizona o respeito e autoestima que necessitava para aceitar a si mesma. Foi lindo.

Pros fãs de Grey’s Anatomy, é conhecido o relacionamento de Calli com o seu melhor amigo, Dr. Mark Sloan, vulgo Mc Steamy, que deu origem a uma gravidez e a uma filha fofinha, Sofia, cuja guarda era compartilhada entre os três (Arizona, Calli e Sloan). Daí que Sloan é morto do supramencionado acidente de avião e a guarda é compartilhada por Calli e Arizona. Ok. Muita coisa acontece, as duas se separam, a Arizona perde uma perna, a Calli se apaixona pela médica que matou o McDreamy (!!!) e resolve se mudar para Nova Iorque. (Agora vem a parte boa). A Arizona acha meio escroto que a Calli resolvesse assim, sem mais nem menos, levar a filha delas pro outro lado do país (tipo morar em Manaus e resolver mudar pra Porto Alegre) e é assim que, mão pesada de drama, vamos parar numa disputa judicial. As duas estão putas da vida uma com a outra e decidem jogar duro. A advogada de Calli resolve aludir incidentalmente a que Arizona não é a mãe biológica da Sofia. Meredith, que está no banco de testemunhas, dá um “QUE VERGONHA, MULÉ” na cara da advogada, mas tudo indica que é ponto pra Calli, que faz um ¯\_(ツ)_/¯ pra Arizona. Eles chamam pro banco de testemunhas a chefe de cirurgia, dra. Miranda Bailey (a secreta verdadeira heroína do programa) e fazem ela contar quantas vezes a Arizona teve que deixar a filha pra fazer uma cirurgia de emergência – e era um monte de vezes. Calli, novamente, ¯\_(ツ)_/¯ para a Arizona. Bailey, que não se faz de rogada, diz na cara da advogada que salvar vidas não é ser má mãe. Ela chama isso de “sucesso” e arremata dizendo que a advogada nunca teria perguntado isso se a Arizona fosse homem. Vráaaaaaaa. Pra fechar, a advogada de Callie ainda faz uma matemática de quantas vezes Arizona foi pro bar pra catar mulher. Tudo é válido no amor e no.... Como é o resto? Enfim, mais uma dessas narrativas americanas de “o que vale é a disputa”, da meritocracia da livre competição. O que está em jogo é o futuro de uma guria, então os fins justificam os meios, blábláblá. O episódio apresenta, entretanto, como grande reviravolta, que é Arizona quem ganha a batalha.

Nada disso são grandes momentos roteirísticos da televisão americana, veja bem. É só um episódio de uma série ruim. O que vemos é material de Introdução ao Feminismo: a juíza é mulher, a filha em disputa é mulher, as mães são mulheres, as advogadas são mulheres. Assim, são mulheres que pautam toda disputa judicial e refletem a respeito das atitudes que são ou não são aptas pra uma mãe. Ok, entendido, Grey’s Anatomy. Mas, partindo do básico, podemos fazer uma reflexão a partir do olhar da parte da audiência heterossexual que assiste a esse programa. Arizona e Callie são um casal querido que nos educou a sermos pessoas melhores. E elas estão marchando aquele longo e amargo caminho de desatar os nós de um relacionamento importante e definidor de personalidade. A gente sabe muito bem que droga isso é. Mas, para um casal heterossexual, o momento de rompimento é um momento de confrontação de expectativas de gênero muito singular. Mesmo na série, isso aparece muitas vezes – com a Christina Yang optando pela vida profissional e não ter filhos incomodando todos os seus relacionamentos. Portanto, desde uma perspectiva batizada pela heteronormatividade, seria de imaginar que, entre um casal lésbico, isso não aconteceria. Mas mais uma vez a série nos educa e nos mostra como o patriarcado está enraizado na nossa sociedade e como ele ainda comanda nossos comportamentos: Callie, para se beneficiar da situação, não pensa duas vezes em se armar do arsenal que o patriarcado meticulosamente organizou em seus cinco mil anos de existência para humilhar sua parceira de tantos anos. ¯\_(ツ)_/¯ , disse Callie, quando sua ex-alma gêmea, sua ex-melhor amiga, sua família é constrangida em um evento público, na frente de todos os seus amigos. Simplesmente, ¯\_(ツ)_/¯. O interessante é que a Arizona poderia ter feito exatamente a mesma coisa, porque nessa disputa se tratam de duas mulheres, mas ela escolhe não fazer. De todas as formas, mais uma sutil lição de Grey’s Anatomy: ninguém está acima do poder devastador do patriarcado. Nem mulheres que se relacionam com outras mulheres estão imunes do intricado tecido que nos subjuga. Isso deveria ser óbvio, mas eu aprendi.

Quantas vezes a gente escolhe usar o arsenal que nos oprime todos os dias, que mina nossa autoestima e nossa carreira profissional, que intoxica nossas relações, para julgar outras mulheres? Quais são as atitudes que podemos tomar para sair desse ciclo vicioso em que fomos educadas, qual seja, usar nossa opressão para oprimir? “Se eu sobrevivo a isso, você também pode” é a lógica. Somos leoas num vídeo ruim do Discovery Channel? Quando/como a gente vai parar de fazer ¯\_(ツ)_/¯ ?

 

 

 

Inverno-Primavera 2016 / Edição RaimundA

Raquel Parrine

Raquel Parrine é muito sincera e gosta de escrever sobre o texto dos outros.

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

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