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Nem um fio de cabelo da dona Clô

Conto de Sara Albuquerque

O instante se arrasta abafado em suas pálpebras. Ele apequena os olhos e posiciona uma das mãos na linha das sobrancelhas, esforçando a meninice para enxergar melhor as cores que dobram a esquina. Em pé, na porta do colégio, só se veem gentes miúdas entrando na rua. Ali, ao longe, Antônio é maior que todas elas. Mas, na medida em que chegam perto da sua visão, a vida se agiganta de tanta pele e botões de roupa, que o menino volta a ser menino, de estatura baixa e farda com rastros de jogo de bola. Dona Clô pode ter se perdido no caminho. Agora Antônio também é gelo no estômago pela espera. Nenhuma das gentes que chegam é a dona Clô. O sol se diminui. O pátio fica preenchido de vazios. Os xaus se emudecem. Nem um fio de cabelo da dona Clô. O menino pega a mochila, engole algum medo e vai sendo sozinho pela calçada.

Antônio puxando o ferrolho do portão de casa, e tudo que é verdade se abre. Expulsa de si os sapatos apertados e caminha sala, corredor, cozinha, quintal e quarto dos fundos para achar dona Clô, escondida pelo tecido que veste a porta de vidro, seu corpo desenhando sombra silenciosa. Antônio se acocora, encosta o rosto no chão e investiga, por baixo da cortina, as pernas cambotas da babá. Ela, debruçada sobre a beira da cama, deixando aparecer sob o avental a parte interna de suas coxas amarronzadas. Bochechas vermelhas se esparramando no rosto, e a intimidade de dona Clô se abraça com os olhos dele. Antônio, o menino, faz que vai embora. Faz que vai, mas ficando e se ficando, aparecem na sua pupila duas pernas masculinas deitadas na cama. Pés descalços, calça coronha. Dona Clô, a babá, segurando os joelhos daquelas pernas com suas mãos de fazer bolo e esmalte rebu desbotado, a boca engolindo o pinto daquelas pernas, a língua derramando baba nos pelos negros e espetados daquelas pernas. Mas dona Clô não parando nunca, afundando o pinto inteiro na sua garganta de pouca fala, não parando pra respirar, não parando pra buscar o menino na escola, não parando pra

Um gemido esbofeteia Antônio, quase fossilizado no chão. Percebe as pernas dormentes e um viço esquentando dentro da calça. Levanta a coragem nos pés e corre até a sala, jogando-se de bruços no sofá recém-comprado, ainda coberto de plástico bolha, com cheiro de novo. Confunde-se embrulhado, também se sentindo sofá. Contrai a pélvis, pulsando os músculos. Coração latejando no corpo inteiro. Vê o relógio andar com seus ponteiros, o abajur estacionar moscas, vontade de fazer xixi. Antônio se sente enorme.

 

 

 

Inverno-Primavera 2016 / Edição RaimundA

Sara Albuquerque

Sara Albuquerque, sobrevivente em Maceió/AL, nasceu em 1990. É artista, queria viver de literatura. Exerce como hobbies a advocacia e o serviço público federal (é Assistente em Administração da EDUFAL - Editora da Universidade Federal de Alagoas). Tem publicados três livros de literatura infantil: "O Segredo do Rio Mundaú"; "Ei, você viu Luizinho?"; e "O embrulho misterioso de Nina"; todos frutos de concursos culturais e publicados pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos (IOGRAM). Publicará o livro de poemas "que inoportuno esse medo de ser", vencedor do Prêmio Literário Línguas e Amigos 2016. Ganhou algumas coisas na vida, mas as melhores delas não cabem no lattes. Facebook: .com/sarareginaalbuquerquefranca. E-mail: albuquerque-sara ARROBA hotmail.com. Twitter: .com/saraalbuquerque. WhatsApp: ops, mentirinha.

 

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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