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Três poemas indignados e uma canção de amor

Coletânea de poemas de Silvana Guimarães

 

as meninas

Esraa tem 13 anos e sobrevive em Al Zatari
— campo de refugiados sírios na Jordânia —
com sua família, a roupa do corpo e a burca.
Graças a Deus, um empresário saudita, 60 anos,
quer casar-se com ela, salvar seus parentes,
sua vida, matar a sua fome: mudar a sua fome.

Zaila tem 16 anos e é estudante em Joanesburgo.
Em um dos seus cadernos, ela marca com tracinhos
o número de vezes que foi estuprada desde os 12.
Graças a Deus, um abaixo-assinado na Avaaz
pede o fim dessa prática na África do Sul e ela
não vê a hora de rasgar aquelas 32 páginas.

Dayanne tem 11 anos e vive no norte da Bahia
com os avós, numa terra sem flor, pai & mãe.
Ganha a vida, balas e chocolates na BR-116.
Graças a Deus, uma atriz está pedindo na tevê
que apadrinhem crianças como ela e mudem o mundo.
Assim, suas primas não ligarão as trompas antes dos 15.

Nina Head, idade não revelada, a cadelinha Chiuaua
da socialite Monique Cavalcanti + 10 sobrenomes,
vive numa cobertura de 1000 m² em São Paulo.
Tem perfil e 1 KB de seguidores nas redes sociais,
onde exibe suas roupas, joias, acessórios e móveis
assinados por fashion designers: graças a Deus.

Deus é bom, justo, leal & misericordioso.
Os homens, à Sua semelhança, também.

* * *

a filha do meio

naquela manhã acordou com o barulho da enceradeira
e um emaranhado de ruídos difusos nos fundos da casa

sem coberta a calcinha afastada as pernas abertas
no meio delas entretido o mesmo dedo indicador

cumpridor dos deveres temente a deus pacato fiel
protetor o papel principal de sua infância feliz: papai

ela bem que tentou fechar os olhos dormir de novo
rasurar aquele sonho e despertar outra vez sem frio

mas a mãe ao telefone desvendava alguns dos seus
guardados segredos para a maionese não desandar

o irmão maior ouvia no rádio I can't get no satisfaction
a irmã mais nova rodopiava pelo quintal em seus patins

e é provável que lá fora o dia fosse dourado & azul
eram 9h de um sábado de junho e fazia muito calor

* * *


autorretrato com colar de espinhos e colibri

carmem madalena flor hermafrodita
mulher e amásia de joão estanislau
pintor de paredes vizinho de barraco
na favela da ventosa belzonte mg
portador de moléstia séria:
furor nos testículos oh carma meu

carmencita carmita carmamarga
madrasta de seis sobrinhos aflitos
dos mamilos apodrecidos
do útero-deserto-áspero
da alma imutável hematoma
do corpocarneviva carmim

desenganada pelo médico do posto de saúde
abro os olhos afasto borboletas e mariposas
yo soy frita: o amor avis rara passou
sem remédio que cure mi obsesión
só a passagem de ida para o ceará: jericoacora
"espero que la marcha sea feliz y espero no volver"

* * *

supermercado

devo-lhe um poema de amor mas
preciso fazer a lista das compras
andar sobre as águas quebrar pedras
romper a fortaleza das palavras
convencer estrelas e cotovias
buscar um farrapo de eternidade
limpar a angústia dos móveis
tirar o encantamento do armário
desvendar seu abismo meus ismos
ferir o pudor raspar o desejo
pera uva maçã ou algodão doce
como se como sempre como sou
adivinhar seu cheiro de magnólia
a febre a dor o desalento implícitos
amar e desamar o seu avesso

: apalpo a palavra pêssego e ela
se diz entrega em suas mãos

 

 

 

 

Inverno-Primavera 2016 / Edição RaimundA

Silvana Guimarães

Silvana Guimarães (Belo Horizonte/MG). Socióloga, escritora, redatora/revisora publicitária. Participou de algumas coletâneas, entre elas, duas que organizou: 29 de abril: o verso da violência (Patuá, 2015), Dedo de Moça — Uma Antologia das Escritoras Suicidas (Terracota, 2009) e Hiperconexões — Realidade Expandida Vol. 2 (Org. Luiz Bras, Patuá, 2014). Editora da Germina — Revista de Literatura & Arte [www.germinaliteratura.com.br] e do site Escritoras Suicidas [www.escritorassuicidas.com.br]. Vive em Belo Horizonte.

Contato da autora

sil.guimaraes ARROBA gmail.com

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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