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Fumaça preta

Coletânea de poemas de Bruno Marra

 

[quando de dentro da cadeia]

se hoje permaneço preso
longe da rua
(me desculpem)
“é que as portas às vezes são estreitas”
e meu corpo foi chamado pra obstruir outros caminhos
é que as janelas viraram TV's sem controle
terremotos movem minhas pernas
sigo gritando daqui o que posso
– contando os dias na parede riscando
o concreto das leis de qualquer tábula legível –
estou preso mas
minha sentença de morte nunca vence

“Como os pássaros que migram para um lugar melhor”
talvez a gente sempre esteja entre os que cortam o vento
(e carregam o grande fardo)
necessário pra seguirmos –
Nossa pena é mais leve
porque sabemos que o vôo existe (?)

neste buraco
em que nos encontramos           hoje
precisamos cavar
a fuga da prisão

* * *

o vento que não vira as folhas
as máquinas que preveem os gestos
o mundo trancado por fora

 

o idioma surdo de tudo o que comunica

 

o sangue não significa
mais

 

– “...e tudo o que existe se derrama” –

* * *
 


pessoas de amanhã
vocês nos ouvem respirar
assim como eu e meus contemporâneos nos perdemos com seus avós?
assim como hoje vagamos pela gênese de vocês?
assim como ignoramos os problemas que vão ser inventados?
assim como cada um de nós hoje planeja um atentado à ordem do mundo como

[forma de nos mantermos vivos?

– depois de vocês,
como a gente sabe,
só vem o fim
(“o barulho das nossas respirações
sobrepostas
umas sobre as outras”)

então
pra distinguir
o que ainda existe
é preciso saber
o que conseguimos ouvir
e o que distinguimos
sem escutar
o que de vocês escreve estas palavras
e o que de mim tenta ler aqui
um meio
de perceber
se ainda estamos
ao menos alguns de nós
vivos

* * *
 

mas que requintes são estes os do caminho?
estamos indo pra lá agora
e sabemos [!]
neste momento o destino fazendo a curva
com nossos pés
nossos próprios pés
a quem obedecem se não definem o trajeto?
porque nos sustentam, os pés, se nossos passos só aproximam a queda?
mas que beleza é essa que nunca existe completamente e nos deixa

[ ¿ s a u d a d e

 

passo-a-passo voltamos desses futuros
negociando a dor e o prazer atropelados no caminho

 

o absurdo é compreensível
a lei da gravidade é conhecida
– é a maçã que dói

* * *

 

faz parte do êxtase pensar que algo é possível
faz parte da morte pensar que agora nos resta menos que antes
o que não faz parte é este acordo
este aperto de mãos da falta de opções
o radicalismo existe pros momentos de meia-morte
pra quando parece razoável não ter o mínimo
pra quando a vida parece um exagero
pra quando parece possível a paz
a mais perversa das ideias
"Nunca viveremos em paz
porque esta Paz é só outro nome pro nosso silêncio”.

E por isso justificam qualquer coisa
por isso o misto de sentimentos
porque não estamos ainda
todos vivos
por que ainda resta esperança
e nunca sabemos o que fazer com ela

 

 

 

 

Outono 2017 / Não Temos Tempo de Temer a Morte

Bruno Marra

Bruno Marra (São Paulo, 1991) faz algumas coisas em forma de filme, música e livro. Escreveu “pelo que a sobrevivência mata” (Editora Patuá, 2016) e, como fato biográfico, prefere não listar títulos, graduações, empregos, premiações e outras medalhas de honra ao mérito. Vive para partilhar a beleza e resistir à morte junto com os amigos e amigas, até mesmo aqueles(as) que não conhece pessoalmente e nunca vai poder conhecer.

Página do autor

brunomarra.tumblr.com

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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