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Migalhas ou milhagens ou miragens / Sem pátria

Dois poemas de Carla Andrade

 

Migalhas ou milhagens ou miragens

Pombos
um pombo no meio de outros mil pombos
eles me viram. eu os vejo.
acordo e já tenho que rodar meu bambolê
e as pessoas nascem de boca aberta
morrem de olhos abertos
despertam, andam,
encarnam em mim, nos outros,
zunem
zumbem
como o açúcar da canas
moídos no meu pensamento
como o melado que ainda fica
na cama depois que você vai
e não sei onde por a mão
a mão sabia de cor
o desenho do rio
da montanha
percorria válvulas
engrenava cada movimento
das articulações
apontava qualquer arma que fizesse
a gente pular
e não tem mais vida no sêmen
que a gente pega entre os dedos
e eles estão entre nossos dedos
eu não sei onde por a mão
mas alimento os pombos
e você diz que são ratos.

* * *

Sem Pátria

Estou sem pontos.
Pior que meu teclado.
Sem acentos, assentos.
Sem interrogacao, sem exclamacao, sem reticencias.
Quem nem os dragoes da independencia em frente ao
Palacio do Planalto
numa tarde de seca em Brasilia.

Homens de crachá
Não gosto dos homens de crachá.
Crachá em cima da gravata.
Gosto de observá-los mesmo assim.
Eles sempre riem sem consentimento do corpo
em reuniões de segunda a sexta no
calendário do tempo vesgo de multinacionais.
São levados a encarnar fantasmas com cifras nos olhos.
Adestram palavras engomadas que colam
nos pensamentos dos
outros homens de crachá.
Lavrar a ata, e a alma?
Fusão, endomarketing e estratégia.
- Quero dizer só mais uma coisa....
E não diz nada. Para se dizer é preciso falar em silêncio.
Acho que me esqueci de um detalhe. ...
Não há detalhes. Quando o que se fala deve quebrar o gelo.
Esquentar o ego e máquinas...
Tive uma boa ideia enquanto
eles, os homens de crachá, falavam
da produção em queda vertiginosa.
Tropecei numa nuvem rasteira e esqueci.
Esqueci. Quer coisa mais humana?

 

 

 

 

Outono 2017 / Não Temos Tempo de Temer a Morte

Carla Andrade

Carla Andrade é mineirinha de Belzonte. Tem três livros publicados: Conjugação de Pingos de Chuva (LGE), Artesanato de Perguntas (7Letras) e Voltagem (7letras). Participou de diversas antologias poéticas como na Escriptonita: pop-esia, mitologia-remix & super-heróis de gibi (Patuá), Fincapé, Contemporâneas (Vida Secreta), além de ter poemas publicados em várias revistas de poesia contemporânea: Mallarmargens, Germina, a portuguesa InComunidade, entre outras.
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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