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Esconda os dentes, não

Coletânea de poemas de Caê Guimarães

 

Sem título

há tanta violência suspensa no silêncio do omisso
quanto no murro ou na fratura advinda do grito
há tanta covardia no delicado gesto de calar
quanto no soco na mesa cheio de fúria e certeza

* * *

 

O anjo afogado

você fuma seu marlboro e dentro das calças sente tesão e medo
eventualmente você mente e embora tente quase nunca sente pelo mundo
você respira fundo antes de dizer o que acha ser verdade e em cada pausa uma nódoa uma náusea uma rosa virada ao avesso você acessa sites
e seus gigabites tornam o fim o seu começo você quebra a banca
banca o foda e tal e qual a lesma toda prosa lambe o musgo do muro para não morrer de fome você some na hora em que o bicho pega nega por três vezes quem jurou defender você estica o dedo em riste e come alpiste com shake para emagrecer você caga e anda e sangra a cada dia uma gota da agonia que insiste em não ver você assina o cheque você risca a porta e o som metálico do seu hálito faz jus a quem você diz ser você ri do que? quando pinta algo além da sua finta perde o rebolado e bota tudo a perder você encontra e esconde porque quer tudo e ao reter engorda e ao engordar explode tudo que não soube dividir ou conter você chora quando vê algo terrível e pensa que podia ser com quem ama ou com você tenta engolir mas engasga a verdade lamacenta e nodosa leva as mãos às faces distorcidas pelo horror ao perceber que o anjo ainda que alado também morre afogado e aí nada mais há a fazer nem por você que sou eu nem por mim que sou você

* * *

 

Banquete no inferno

eu cheguei aos portões do inferno e os atravessei como convidado
sentei à mesa com todos os demônios
eles comiam um repasto com os dedos lambuzados de gordura
destroçavam com dentes afiados carne nervos e ossos
servidos em bandejas enormes e polidas
em ritual de júbilo e tortura sentei à mesa com todos os demônios
eles riam e contabilizavam arrobas saqueadas
gritavam a suas mulheres tristes reprimidas e servis
que lhes servissem mais vinho nas taças
sobre nacos de saliva e sangue comemoravam o butim
mas não venha pensar aqui, seu incauto, que havia choro
e ranger de dentes misturados ao suco de enxofre e lava
com os dedos lambuzados de gordura e carrancas duras
derramavam ódio por cada poro fístula e fissura
mas o ambiente em seu entorno era bucólico e pastoril
além dos portões do inferno parecia ter algum lugar bonito
pra viver em paz, onde a natureza explode a força de cem sóis
porque demônios – perceba – sorvem os licores da beleza
mas o fazem como o verme rói as fezes
destroçam com os dentes afiados e têm febre
muita febre e desespero por saber que ter não é ser
pois tudo aquilo que querem, ferem
em ritual de júbilo e tortura
neguei três vezes a oferta do banquete
mas sentei à mesa com todos os demônios
enquanto provei da paisagem ardilosamente calma
o inferno – pensei entredentes – é o que se leva dentro da alma

* * *

 

Amém seu rato

você estabelece uma nova regra, um novo hino, uma nova treta
você delega, amola a faca cega e nega tudo que enseja
você determina o que breca e avança
enquanto cresce brutalmente em sua pança
uma fome matemática e ilesa
você devora e ora
e ora e ora bolas
noves fora a sua certeza chega a esquecer comumente
como mente quando manipula um fato
amém
amém
amém seu rato

* * *

 

Esconda os dentes, não

esconda os dentes, não.
a hora não é para lisuras e arremedos
jogue fora a chave do cofre e a salvaguarda dos segredos
incinere os caderninhos e apostilas da Socila
arreganhe os 32 dentes e a gengiva
e leve seu corpo delito para passear
nas bordas escorregadias e aflitas do precipício
seu vício lupino e seu braço atado ao laço do abraço
cuidado – há um inimigo na esquina do hiperespaço
escancare os dentes, sim
repare na fúria genuína das meninas
nos negros & nos gays & na vida pulsando nas periferias
na verdade sem sedas das famílias nordestinas
e nas certezas que correm pelas ruas
na direção oposta às patas equinas
doravante, sem mesóclises ou poesias cretinas
vamos dormir na tempestade
o som de um trovão nos ilumina

 

 

 

 

Outono 2017 / Não Temos Tempo de Temer a Morte

Caê Guimarães

Caê Guimarães nasceu no Rio de Janeiro em 1970. Foi criado no Espírito Santo e viveu temporadas em Ouro Preto e Belo Horizonte. É poeta, escritor, roteirista e jornalista. Desde o final dos anos 80 desenvolve pesquisas com a linguagem em verso e prosa. Flerta com a poesia concreta e o haicai. Participou de instalações e saraus em eventos e festivais de cultura e arte no Brasil, na França e na Inglaterra. É letrista e parceiro do compositor e cantor Johnatan Silva. Publicou Por Baixo da Pele Fria (poesia/1997), Entalhe Final (novela/1999), ambos por Massao Ohno Editor; Quando o Dia Nasce Sujo (poesia 2006) e De Quando Minha Rua Tinha Borboletas (crônicas/2010), ambos por Secult/ES e Vácuo(poesia/2014) pela Editora Cousa. Em 2013, seu primeiro livro foi lançado na Espanha em edição bilíngue português/catalão como Per Sota de la Pel Freda (Cubert Edicions/Fundação Biblioteca Nacional), com tradução de Joana Castells. Possui dois livros inéditos, Esconda os Dentes, Não (poesia), e O livro de Haiquases, (haicais). Seu primeiro romance, Encontro Você no 8º Round, está em fase de revisão. Publica poemas regularmente em facebook.com/cae.guimaraes e em facebook.com/caeguimaraesescritor/.
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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