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5 minutos e outros poemas

Coletânea de poemas de Dheyne de Souza

 

domingo, 17 de abril de 2016
do ódio que derrama dos dentes, independentemente da cor das gengivas, das camisas, das vias
da dor dos direitos lesados
do medo que descama nas mentes, dependentemente de vozes
que não vociferam virtudes
que não zelam
da história adquirida a suores a sangue a pancadas a vidas
ratos em vaginas
leis em latrinas
do absurdo de hastear a morte o golpe o cuspe o lustre
de deus da família dos nomes
instituições todas falidas
enquanto pisam repetidamente nos olhos nos ovos nos seios
do humano
ameaçado de mote
ameaçado de mote
Ameaçado de mote.

* * *

5 minutos
Queria lembrar como se faz para ser bom de novo. Acender uma esperança como acender um cigarro. Acreditar como se pôr no fim do dia. Regar os olhos como se não fosse pra fora. Deixar morrer lembranças daninhas, daquelas memórias que vêm como se fossem agulhas que dobram a esquina repentinamente velozmente abandonar o barco dos emboras. Trotar num campo de trigo ainda que haja semáforos. Fazer vasos de barro como quebrar vidros. Pontuar com vírgulas muito bem subordinadas. Falar calmo como se urrasse. Corresponder com brandura como se fodesse. Dormir como se pesadelos fossem sonhos. Mas a memória carcome até o caminho das crenças. Memória é isso de caminhar descalço, aprender a calçar e cultivar calos? Memória mora mais embaixo ou acima da parte que foi ficando grossa? Foda-se. Raspar a vida até chegar no osso. Aparecer como se sumisse absolutamente do cosmos, do universo, da via láctea cafeínica pólvora fumaça breu gota d’água. Caminhar como se houvesse músculos onde dorme a alma. Ter alma como se fosse uma. Romper os lacres como se comprasse balas armas e um – breve, de preferência ilustrado. Como se chama isso que vem com os eletrodomésticos, automóveis, móveis, objetos prontos ready mades remédios? Manualmente tecer uma boca que abre e fecha sorrindo na velocidade no tom no zoom na hora no nu tudo perfeito. Abrir a porta como se fechasse até a fresta mais carcomida da janela e explodisse lá dentro. Praticamente tudo como se absolutamente nada. Água como se cicuta. Sim como se não. Não como se pros infernos. Pros infernos como se deus tivesse enfim chegado com uma memória nova limpa enxuta de preferência lavanda.

* * *

daqui
deste tempo de dentes esmaltados de ódios, onde já não há mais verdade. já houve? neste tempo em que opiniões mudam conforme o valor, que a moeda nunca é ética. o que é ética? há mãos que lutam violentamente por educação e saúde. violentadas. este tempo em que mais vale temer que dormir com dignidade. que respeito já não tem mais verbo. quantos louros para ponderar? paciência na mesma mão da passividade. mentira na mão da omissão. rimas pobres, televisores de cabeceira, seres humanos inanimados. este tempo que não tem mais lugar. tem pó? para voz. para ouvido. para nãos. anuncia, tempo, um passo, um bem, uma virtude? dá, sopro, um pouco mais de energia, quem sabe um suspiro, uma paz, uma noite que não seja, em algum momento, oca? que a vida tem sido uma dificuldade de crença. uma pérola branca no branco nu. vista-se. é preciso chegar, é preciso sair, é preciso ficar. é preciso? e não suportar: é preciso? descansa, ímpeto, que não há mais vaga no corpo. no coro. de cor. saudemos como se fôssemos um. brinde nos jantares, arroto no banheiro, vazio no cílio. que já não sabe chover. que a chuva lá fora volta. neste tempo de ruínas onde a história não brota. neste tempo, ouça bem, futuro, em que não há mais dois pontos?

* * *

nãos tempos
não temos tempo de perder o trem
não temos tempo de olhar no olho
não temos tempo de parar ouvir querer poder
não temos tempo veja bem as horas
veja bem a
veja
não temos tempo cais palácio asilo
temos fome miséria temos filhos
não temos tempo de dizer à mãe ao pai à pátria
amada, não temos tempo de dizer
não temos tempo sequer
de calar
não temos tempo de temer a morte o açoite a voz a vez a ver o tempo
não temos tempo de temer o temer

 

 

 

Outono 2017 / Não Temos Tempo de Temer a Morte

Dheyne de Souza


Dheyne de Souza mora em Goiânia. Tem um livro de poemas publicado (Pequenos Mundos Caóticos), além de ebooks disponíveis em seu blog: dheyne.wordpress.com. Tem um canal de leitura/vocalização de poesia prosa prosema, em parceria com o artista visual Helô Sanvoy, chamado Pequenos Mundos. É membro do grupo de vocalização Corpo de Voz, de Goiânia. No mestrado em Estudos Literários pela UFG, pesquisa a prosa poética de Hilda Hilst.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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