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Editorial: Outono 2017

de Rafael Lasevitz

 

Imagem: Anônima

 

Eduardo Galeano diz que a história é uma senhora lenta, caprichosa, às vezes louca, complicada e misteriosa. Para mim, que vivi a maior parte da minha vida em Brasília, a ideia de história como senhora lenta encontra certa resistência. Os botecos "tradicionais" de Brasília se orgulham de terem sido fundados nos longínquos anos 60. Tem gente viva que viveu a história da cidade do começo ao fim. Caminhando pela universidade, os ferros retorcidos expostos lembram que a cidade sequer terminou de ficar pronta. Um europeu em Brasília uma vez me disse que teria dificuldade de viver em uma cidade assim "sem história" e desde então, sempre que o assunto aparece me pergunto por quê.

A frase do Galeano não diz, mas dá a entender que, ao contrário da história, a vida é uma coisa mais acelerada: acontece agora e agora de novo, e agora outra vez. A vida não deixa pausas para respirar. Ela é o tempo todo feita do agora, pouco importa se tenhamos toda uma série de substantivos abstratos para falar de sentimentos ligados ao antes e depois: “paciência”, “esperança”, “memória”, “nostalgia”, “não tem pressa”, ou, “é como se você ainda estivesse aqui”. No fim das contas falam todos também do agora, só que através de sentimentos que tentam fazer que o que está ausente do agora seja mais tolerável: no agora.

Pensando assim, a história seria aquilo que se faz também em certos agoras, quando os outros agoras mais urgentes, tipo fila do hospital, hora extra no trabalho, lista do supermercado, dão um tempo. A história precisa de um tempo para sentar. "Senta que lá vem história", lembram? Mas ao contrário da história, a vida é passada de pé. Anos atrás participei de uma pesquisa num condomínio do Distrito Federal, o Sol Nascente. No Distrito Federal, a combinação entre especulaçao imobiliária, corrupção e grandes desigualdades sociais levou a formaçao de imensas ocupações irregulares de terras tanto de alta como de baixa renda. As de alta renda costumam se encerrar em condomínios para se proteger da criminalidade. As ocupações de baixa renda, na prática, são favelas. Se tornam condomínios fechados para se proteger de eventuais batidas da polícia ou dos guindastes que vêm balançando suas bigornas para restaurar a legalidade do mundo. O Sol Nascente é uma dessas favelas-condomínio. Nunca se sabe muito bem quando o governo vai resolver demolir casas. A portaria serve em grande parte justamente para isso, como uma forma de sentinela para essas incertezas. Me mostraram em uma das minhas visitas ao Sol Nascente um imenso buraco em uma das ruas principais. "Semana passada comemoramos um ano do aniversário do buraco", um morador me disse. "Como?" "Um ano, com bolo de chocolate, velinha e tudo".

Geralmente quando se pensa em governo, se pensa em uma pessoa: um nome e uma cara que simbolizam e agregam tudo o que se faz e deixa de se fazer com a máquina estatal. É claro que o governo é muito maior e mais complexo do que um nome. Os moradores do Sol Nascente fecharam a porta para os tratores demolidores de casa do governo, mas protestaram contra a imensa cratera no meio da rua há um ano para a qual o governo ainda não havia enviado ninguém. 365 dias. Quem teria anotado o dia do nascimento do buraco? Geralmente se comemora aniversário de coisas que vivemos no dia a dia, agora e agora e agora de novo, tão imersos dentro delas mesmas que se precisa de um aniversário para sair de dentro delas e se lembrar que um ano de agoras já se passaram: aniversário de namoro, casamento, cidade, vida, ou buraco. Na frente do escritório da associação de moradores tinham pintado em letras garrafais o nome de um candidato a deputado, o qual, aliás, eu particularmente não gostava. "Sempre que político começa a vir aqui e fazer coisas pela gente, a gente pinta o nome aí no muro. Nao tem ilusão, a gente sabe que eles sempre largam a gente uma hora. Aí a gente pinta de branco de novo e espera o próximo político aparecer pra pintar de novo"* .

Isso ficou na minha cabeça: essa urgência, essas alianças pelo imediato, feitas com letras garrafais e desfeitas com tinta branca; o tempo do deputado que é outro, sua urgência pelas eleições, depois seus quatro anos de mandato ao longo dos quais novas alianças podem ser feitas com outros bairros, novos esquemas com outros grupos políticos, listas de prioridades sendo escritas e reescritas. No fim das contas não é isso o que acontece nas relações entre pessoas e governo? De um lado o agora, do outro, uma lista de prioridades com vários agoras empilhados, alguns sublinhados, outros postos sem pudor ou vergonha em posições como décimo-quinto, quadragésimo-terceiro, um canto empoeirado atrás da escrivaninha junto com uma caneta do partido e um amendoim velho. O tempo da política pertencendo a um universo completamente diferente ao tempo do agora nosso de cada dia.

Quando resolvemos fazer essa edição, o impeachment do governo Dilma Rousseff havia acabado de acontecer em circunstâncias que nos permitem falar em golpe parlamentar. O novo governo, encabeçado pelo até então vice-presidente Michel Temer, apoiara o impeachment e agora se organizava visando manter um já antigo esquema de corrupção que se via agora ameaçado. Sentimos que fazer uma edição de protesto da Raimundo dessa vez seria imprescindível, ainda que levantasse diversas perguntas. O que pode fazer a literatura de protesto? Nem falo em termos de mobilização de massas, que a literatura perdeu esse lugar já há tempos. Alguns anos atrás o nobel alemão Günter Grass escreveu um poema criticando o governo de Israel. O poema ganhou destaque em um grande jornal alemão e depois, ao redor do mundo. Incontáveis foram os artigos criticando a superficialidade do poema de Grass, outros, as contradições na biografia de Grass e alguns até mesmo elogiando a iniciativa, mas poucos falaram do que para mim foi o mais impressionante: um poema ganhava as manchetes do mundo. Em minhas poucas décadas de vida, isso era uma coisa que eu jamais tinha visto.

Não vou fazer nenhuma análise elaborada da literatura de protesto. Para mim, tomar uma posição é sempre importante em momentos de crise nem que seja como um registro. Na falta de justificativa de uma ação pelo máximo (revolução?), justifica-se a ação pelo mínimo de que ela é capaz: ou seja, ao menos, que nossa postura possa constar dos arquivos, quem sabe revirar algumas mentes, ser um like a mais no copo de likes transbordando. Mas outras questões são importantes. Como se faz literatura de protesto? Grass foi criticado entre outras coisas pela estética do tom explícito de suas críticas a Israel. Semana retrasada ouvi um filme apresentado em Cannes (não lembro qual) ser criticado por ser "cru demais" em sua crítica social. Todos já passamos por momentos em que nos deparamos com esse "cru demais", aquela estranha bifurcação em que terminamos de ver um filme ou livro e começamos a debater com amigos se aquilo ainda era arte ou se tinha atravessado a frágil linha (não há muros por essas bandas) que separa a arte do panfleto. Que resposta dar? Onde começa um e termina o outro? A pergunta pode parecer excessivamente abstrata ou estética, então para reformular: quando a tentativa de manter uma crítica política em um nível “implícito”, escondida em subtextos, termina por se tornar uma forma de autocensura? Quando a necessidade da arte esconde excessivamente o protesto que quer fazer? Quando a arte autossabota sua política?

Quando lançamos a chamada para esta edição, o governo Temer tinha começado havia pouco tempo. O tempo de lançar a chamada, de poemas e contos serem escritos, de se fazer a leitura e seleção dos textos para essa edição, formatar e escrever o editorial, acaba que o governo Temer já está por um fio, envolvido nos mais diversos escândalos de corrupção. Tudo muito rápido? Será que passou tão rápido para aqueles que foram diretamente afetados pelos cortes e términos de diversos programas sociais ocorridos desde o pré-Temer na presidência sob a bandeira de uma arcaica política de austeridade (as pressões do congresso e da mídia pela austeridade começaram antes da queda Dilma)? Quantos agoras se passaram entre o primeiro dia da austeridade e o último? Com que calculadora somá-los?

Nessa torrente de agoras que se sucedem, a literatura e a história talvez encontrem um ponto em comum. Ambas se constroem nos intervalos entre um agora e outro, feitas de longe por aqueles que tem o privilégio de sair do seu agora vivido para pensar um agora alheio, ou de perto, entre um e outro agoras espremidos pelas exigências urgentes da vida fora do papel. Ambas, feitas entre um agora e outro, sempre chegam um pouco tarde e, quando chegam, se veem forçadas a editar essa infinitude de agoras com as tesouras e os marca-textos que acharem mais adequados para a tarefa. E esse poder de edição é um poder lindo e necessário, mas também violento e que confunde. Brasília pode ter sido fundada em sua forma atual em meados do século XX e ter muito menos páginas de história e literatura fixadas em papel do que tantas outras cidades do mundo, mas no universo infinito da vida vivida, tem tantos agoras quanto os milhares de anos de Roma ou Pequim.

Quero falar de Brasília porque Brasília é emblemática dessa discrepância. Brasília é tantas vezes pensada somente como centro do Estado, das negociatas às escuras e da corrupção, das políticas públicas pensadas de cima para baixo, vividas como representações em um computador e em salas de reuniões que oferecem experiências de vida radicalmente diferentes daquelas que serão vividas por aqueles que serão afetados pelas mesmas políticas. Mas Brasília, como tudo em que existe governo e classes sociais, é composta de múltiplas camadas de espaço e de tempo. A antropóloga Antonádia Borges** fala de pessoas que, em busca de um "lugar para morar", se inscrevem no começo dos anos 2000 em programas de distribuição de lotes do governo do Distrito Federal. A inscrição, porém, exige uma série de pré-requisitos, entre eles, que o requerente possa provar ter passado ao menos os últimos cinco anos residindo em Brasília. Assim começa um ciclo de produção de tempo sem-casa, que é também produção de tempo burocrático à espera de casa, transitando ao longo de meia década entre casas de amigos, conhecidos e parentes, de cidade-satélite em cidade-satélite, de barraco em barraco, até que tempo suficiente tenha sido acumulado para se transformar em um pedido de entrada em uma fila de espera pelo lote, esse "lugar para morar" vazio que se transformará em barraco e de barraco em casa construída. Cinco anos em que os papéis da burocracia estatal se transformam em cinco anos de vida vivida, segundo em cima de segundo, incerteza em cima de incerteza, traduzindo papeladas em modo de existir dentro do cotidiano imediato.

E então a gente chega com essa edição ressignificando a Gal Costa e dizendo que Não Temos Tempo de Temer a Morte, e, no fundo, desde a primeira linha desse editorial, é disso que estou tentando falar, dessa falta de tempo que faz parte da vida, que é a vida, apesar de todos os sistemas, máquinas, governos, burocracias, cortes, projetos de desenvolvimento, ciclos eleitorais, golpes, pedidos de vista e filas de espera que nos dão a entender o extremo oposto, que temos todo o tempo do mundo, que nos faz acreditar que ao contrário do dólar e mais do que o real, nenhuma moeda é mais barata do que cada instante que se passa à espera de alguém cujo instante vale mais do que o seu.

Essa edição da Raimundo é feita por pessoas que vêm de universos extremamente díspares, cada uma vivendo todas as crises a crise (afinal, todas as crises e golpes são diferentes exceto naquilo em que são todas de alguma maneira a mesma) de maneira distinta uma da outra. Em comum, o fato de que todas em algum momento decidiram que fazia sentido e valia a pena se sentar e passar por essa incrível alquimia que transforma tempo vivido, esse agora, agora e agora que está sempre acima de tudo o que vem antes e depois, em literatura e protesto. E talvez mais do que tudo, em uma narrativa que nos faça sair dessa máquina incessante de moer instantes e tentar dar sentido e ordem a tudo o que tem acontecido e deixado de acontecer nessas nossas vidas cercadas de Estado por todos os lados, mesmo quando temos o privilégio (ou falta dele) de não ter tempo para perceber.

Boa leitura!

(*) Citação feita de memória, desculpem, não achei meu caderno de notas mas espero ter traduzido bem a ideia.
(**) BORGES, Antonádia. 2004. Tempo de Brasília: etnografando lugares-eventos da política. Rio de Janeiro: Relume Dumará. 194 pp.

 

 

 

 

Outono 2017

Não Temos Tempo de Temer a Morte

 
Bruno Marra

Caê Guimarães

Carla Andrade

Daniel Sanches

Dheyne de Souza

Giuliana Palumbo

Jorge Miranda

Luiz Guilherme Sakai

Marcos Visnadi

Marian Pessah

Mariana Terin Gomes

Mario Travassos

Pilar Bu

Pollyana Quintella

Renata Cristina Pereira

Rosana Piccolo

Sara Timóteo

Tadeu Renato

Tatiane Silva Santos

Tomaz Amorim Izabel
 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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