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Servindo a mesa

Conto de Giuliana Palumbo

 

Para quem tem crise existencial, meia dúzia de ovos na geladeira é estímulo suficiente. Afinal, aqueles casulos brancos e gelados podiam ter gerado pintos, mas vão virar mistura pra salada de batatas. E agora é obrigação do ser humano devorá-los, pois só assim eles podem cumprir a missão que a vida destinou a eles.

A física quântica explica que nada é matéria, tudo é energia. Alguém imaginou o micro-ondas e outro alguém imaginou esse potinho que frita ovos no micro-ondas. E é por respeito à energia alheia que a gente utiliza esses aparelhos e utensílios, calmamente, sem ficarmos ansiosos com os trinta segundos do visor do micro que parecem não passar nunca. Relaxa! Vamos relaxar. Os trinta segundos vão passar antes que eu termine de escrever e você termine de ler esse texto.

Depois, nós vamos reparar que a colher serve pra colocar o ovo no prato, e a mesa serve pra colocar o prato em cima. A cadeira existe pra você sentar, e o guardanapo pra limpar sua boca. Seus dentes servem pra triturar o alimento, e o copo pra colocar bebida. Mas e você? Pra quê você serve? Se for arquiteto, talvez sirva pra desenhar pontes. Mas é só? Você existe apenas pra desenhar pontes? Alguém imaginou você, e sua mãe te gerou para que pontes fossem desenhadas?

Se for médico, então serve para salvar vidas. Bonita serventia. Útil. Você cura a gripe do arquiteto que desenha pontes para que outras pessoas, cada uma com sua misteriosa serventia, passem de um lugar para outro. Mas para quê? E o que mais? Profissão é função? Para que serve você sem o jaleco então? E por que é que você está aqui e não do outro lado da ponte? Por que me lendo e não lendo Dostoievski?

Pra que sirvo eu além de te perguntar para o que servimos? Percebe? Se fôssemos geladeiras, era óbvio! Manter os alimentos refrigerados para que, mais tarde, o fogão os esquente e os humanos se alimentem. Os humanos que ninguém sabe dizer pra que servem e porque constroem coisas que os servem.

Meia dúzia de ovos perturba quem tem crise existencial a ponto de algumas pessoas passarem alguns minutos sentindo o frio da geladeira no corpo e a luz que sai de dentro dela no rosto, sem conseguirem decidir o que comer.

 

 

 

Outono 2017 / Não Temos Tempo de Temer a Morte

Giuliana Palumbo

Giuliana Palumbo, 24 anos, apaixonada por literatura e cultura pop. Sou escritora compulsiva, roteirista, redatora, e autora independente com duas obras publicadas: Murmúrio e O segredo de Luna. Não me lembro da última vez que passei uma semana inteira sem escrever. Atualmente, administro dois blogs: um sobre entretenimento e outro sobre variedades. Trabalho com diagramação de livros, criação de capas e divulgação de obras. Participo de saraus e oficinas de criação, adoro visitar exposições, e tenho o sonho secreto de escrever novelas. Ainda em 2017, pretendo lançar meu primeiro livro de crônicas em parceria com outra autora.
 

Página da autora alfabetizadacriativa.wordpress.com

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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