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Hanami

Conto de Luiz Guilherme Sakai

“[...] Foi assim que a família descobriu o local que viriam a chamar de ‘pátio de dentro’. Na verdade, estava mais para um jardim de palácio, com árvores altas mais velhas que qualquer uma que já tinham visto [...]. Decidiu-se que o pátio seria um segredo de família, embora ninguém tivesse expressado isso em palavras – só parecia ser a coisa certa a fazer. Sentiam, porém, que não era possível contar aos outros sobre aquilo ”*.

 

Fechou o livro ao ler essa passagem. Lembrou que, uma vez, em sua casa, já sem jardim, uma árvore começara a crescer sobre o telhado, ao passo que as raízes penetravam a laje. Era criança. Crescesse mais, pensava àquela época, a árvore se sobreporia às casas vizinhas. Imensas raízes já dentro das paredes. Seu novo teto. Debaixo da árvore, uma vida diferente da que levam os demais. Uma vida em segredo, seu pátio de dentro.

Anotou em seguida:

Jardim abandonado é um dos meus preferidos movimentos da suíte ‘Crônica da casa assassinada’, de Tom Jobim. Sinestesia é meu pátio: vislumbro nos sons a paisagem em que predomina a cor verde e que é marcada pelas raízes que se tornam cada vez mais profundas das árvores. É como se, fechado no meu quarto, fosse compensada a ausência de jardim. E como se fosse esquecida a impossibilidade de viver debaixo de uma árvore.

***

Procurar nos livros as respostas e na música um sentido, ele acreditava nisso.

Até que um dia reuniram-se os da família. Pai, mãe, suas duas irmãs e até mesmo alguns outros parentes. Há tempos não se via isso. O pai nunca teve facilidade para se expressar, seco. A mãe era o contrário, e se valia do tom professoral para construir falas concatenadas que lhe são de costume; difícil ela perder palavra, mesmo em situações como aquela. Uma das irmãs, por seu turno calada, e de gestos lúcidos. Ele, também em silêncio, a fumar um cigarro atrás do outro.

Noite de segunda-feira. 19h, 20h (?), um telefonema. Ele chegou uma hora mais tarde, sem tempo de ver o corpo, já embrulhado pela perícia e estirado numa maca que descia a escada. Alguém diria que chegou atrasado de propósito, porque não queria mesmo estar lá, ou porque não se considerava preparado para encarar o cadáver com uma marca de corda que lhe deixou o pescoço molenga e talvez com hematomas. Chegou atrasado porque não queria crer.

E porque chegou atrasado, também não viu a outra irmã, assustada e a repetir palavras inaudíveis, ser socorrida. Ela, a levar durante anos uma vida que ele, já não mais criança, há tempos considerava mistério. Ela, quem primeiro viu o corpo suspenso, em sutis movimentos pendulares. Ela. Ela, que cortou a corda que pendurava o morto pelo pescoço com a mesma faca com a qual seria assassinada pelo suicida. Ela, que ainda atinou para fazer o telefonema. Ela, a do pátio de dentro verdadeiro inferno, já não mais segredo. Ela era forte.

E ele olhava para todo mundo, ali, reunido. Como cada um tentava encontrar porquês: um olhava fixo pra nada; aquele ia de um lado para o outro; houve quem se entorpeceu de assuntos amenos, tentando ver até mesmo o lado bom da coisa. Mesmo diante do inominável, sempre há a horda do poderia ser pior, ele pensava irritado. Desse otimismo forjado e precário decorreria nos próximos dias o silêncio de quase todos ali presentes, silêncio que, por outro lado, impedia que se pronunciasse “Tudo vai ficar bem”. Desviou o olhar dos familiares para observar um mendigo, surgido do nada, que se acocorava para pegar as bitucas de cigarro dispensadas na rua. Admirou sua resiliência.

Apesar de “Tudo vai ficar bem” não ser pronunciado, ele preferiu acreditar que essas quatro palavras seriam o pátio-segredo entre alguns da família. Ou será que tudo o que se calou daquele momento em diante estava a serviço de um objetivo maior? de um acordo tácito, segundo o qual, à medida que o corpo esfriar e se decompor, o suicida seria banido da memória coletiva?

***

Quinze anos antes, também fora segredo a primeira tatuagem que ela, então menor, fez e que mostrou a ele. Na nuca, pra mãe e pai não notarem – e quando viram, bem depois, acharam até legal. Dessa vez chegou com outra. É o Sakura, explicou a ele. Ficou pensativo, quieto. Talvez ele tivesse mais dificuldade para ouvir do que ela para falar. Concluiu que ela, agora, tinha uma árvore sob a qual ficar. Em estado especialmente contemplativo, a ver o florescer com o olhar de sobrevivente.

 

(*) Do livro Contos de lugares distantes. Shaun Tan. Cosac Naify. 2012. Trad. Érico Assis.  

 

 

 

Outono 2017 / Não Temos Tempo de Temer a Morte

Luiz Guilherme Sakai

Luiz Guilherme Sakai, 1986, se diz professor e músico violonista. possui graduação em letras, especialização e mestrado em literatura. Tem escritos e publicações bissextos.

 

 

 

 

 

 

 

 

   

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Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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