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A cobra

Poema avulso de Mariana Terin Gomes

Estou aqui.
Estou sentada na mesa da cozinha de dentro. Só usamos essa cozinha no café da manhã ou para receber visitas.
É quase hora do almoço e eu estou aqui.
Tem um caminho de renda branca sobre a mesa de madeira escura. Gosto dos veios da madeira. O caminho é horrível. Tem flores horríveis com folhas horríveis.
Tem um vaso sobre o caminho de mesa.
Orquídeas arroxeadas, graúdas. Lindas.
Ainda estou aqui. Que inconveniência.
Imagino a minha cara com um sorriso complacente.
Ainda está fácil sorrir.
Está fácil acenar.
Fácil responder.
Minhas pernas não se ajeitam e sob o tampo da mesa cruzam e descruzam, na altura dos joelhos, dos tornozelos.
A mão apoia meu queixo.
As duas apoiam meu queixo.
Se cruzam no colo.
Sorriso.
Está começando a doer.
Vamos almoçar. Não quero.
Tem uma cobra gorda enrolada no meu estômago.
Enrolando e desenrolando, chapinhando na bile aquosa.
Apertada.
Mudamos de cozinha.
Na cozinha externa.
A mesa é maior, a toalha xadrez é mais feia. Fede a comida.
Barulho de mastigação e deglutição.
Minha cobra não se ajeita.
Dobra e desdobra sua grossura atolada na bile.
Se depositam sobre ela pedaços meio triturados de carne e feijão.
É só angústia no meu estômago.
Não olho mais pra frente.
Sorrir dói.
Não aceno.
Estou concentrada nessa anaconda toda torta, triste e esmagada no meu estômago.
Estou imóvel e isso também dói.
Meus músculos choram. Estão frouxos.
As lágrimas de todo o meu corpo, da minha cobra, do meu sorriso sobem aos meus olhos.
A cobra sobe.
Se espreme larga nas paredes do meu esôfago que também a esmaga.
Ela chora frustrada.
Eu baixo a cabeça.
Apoio a testa nas mãos e as primeiras lágrimas da minha bile saem de mim como o pus de uma espinha.
O quê estou fazendo?
Engulo a cobra.
De volta ao cubículo viscoso e sujo ela se desespera.
Eu quero sair!
Arranco a pele ao redor das unhas.
A cobra está exausta.
Grande e torta ela chora impotente e aflita em um balé de derrotada.
Borbulha e engasga epilética na bile.
Quero vomitar.
Eu quero sair!

Vamos ao portão.
A cabeçona se enfia de novo no meu esôfago.
O portão se abre.
Ouço minha voz.
O portão se fecha. Então acontece.
A cabeça triangular enorme e gorda sai pela minha boca.
Sinto os músculos enormes passando pela minha garganta apertada e saindo de mim.
Ela desliza rápida e eterna quando outras cabeças despontam da minha goela.
Filhas aos milhares se livram das minhas entranhas-cárcere.
As menores já se foram e a mãe ainda está terminando de sair.
Quando o final do rabo toca meus lábios estou vazia. Aliviada.

 

 

 

Outono 2017 / Não Temos Tempo de Temer a Morte

Mariana Terin Gomes

Mariana Terin Gomes nasceu no interior de São Paulo em 1991. Aprendeu a ler com a avó aos 4 anos e desde então não parou mais. Tentou ser farmacêutica, mas nunca conseguiu tratar a literatura apenas como um hobby. Escreve pequenos contos e diários esparsos desde a infância. Hoje faz Letras na USP-SP e esta é sua primeira publicação.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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