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Bocas de lobo

Coletânea de poemas de Rosana Piccolo

Quadrilátero
pétala roxa no canto da boca, tão cruel
a queimadura do cachimbo:
petúnia da lepra

lázaros, onde o aviso?
______________________________ não vos pisa o cavalo da polícia
                                                             com medo do contágio
onde o milagre
que derrote a sepultura?

Valha-me, Nossa Senhora da Luz
farol da névoa selvagem
teu fértil altar

já não enxergas a tez
de teus vaga-lumes vagantes
ruas fumam teus olhos
como duas pedras ardentes

* * *
 

Telhas de zinco
lírios de fogo à meia-voz
onde botas pisam cadáveres
e bailes funk

o dia raia sem ilusões
para as que acordam mais cedo
para lavar o escarro, o fétido cinzeiro
dos espelhos protuberantes

aprenderam com o tempo
já sabem

não haverá poente
a lamber o retorno
às caveiras de cimento
nenhum paraíso
entre o miado das lâmpadas

* * *

 

Crime perfeito

– um engolidor de fogo no espelho da criança, o querosene
– a chama vagarosa subiu pela cortina, fez-se o incêndio
– se destruiu os barracos, se adentrou todos os becos
– foi fagulha! fogo de artifício derramado no varal
– a vela acesa, o pavio indeciso, foram candelabros do inferno
– foi a queda, o balão arlequinal, fez-se o incêndio
– fósforo riscado, cigarro adormecido na beira do lençol
– foi a cobiça, a retroescavadeira maquiada de dragão

* * *

Meninos
Subproduto do acaso. Sujos,
lagarta nas ventas intoxicadas
a lama é a sua primeira escola

Sujos e nus. Saltam em piscinas imaginárias
iniciantes na gíria dos vendedores da morte

Rua 6/7 – s/n˚
quase a inscrição de uma cela
_______________________________monarcas onde serão
                                                              e absolutos
ou travesseiros de sangue

mal aprendem a chorar, recebem na boca
uma colher de pimenta

* * *

Asa ferida
manhã-assoalho
tamanha é a pressa do vento

(a echarpe dos anjos enforca torres de vidro)

avenidas __________ vomitam pernas de brim
quando não negras, azuis-celestes
pisam a alma das macabéas

no pão judiado dos bares
mortadela e migalhas

* * *
 

Caminho de casa
rangido de portas arriadas
arrefece rimas do comércio
refrão dos Sonhos de Valsa vendidos
a céu aberto

o sol
______________misterioso vaqueiro
ficou para trás
para deter o chifre das águas
para roer os ossos do gado
e o rasto vacilante das trouxas sonâmbulas
_____________ balconistas

fios de cabelo
escapam do coque
rebeldes ____________________
como o espinho de um cacto

* * *

Metropolitano
rajadas egípcias, tantos e tantas
na escada rolante
(mais do que o número dos escritórios
cortando seus cérebros em bifes)

gafanhotos quase
ansiosos, aglomerados, crepitantes, embaralhados
na plataforma pisada

o trem avança com olhos em brasa
conduz ao inferno a todo minuto

* * *
 

Uivos
pelas torneiras, o uivo noturno
uivo furioso das serras e martelos
da veia saltada das peixarias estúpidas
em oleodutos, uivo

das catedrais dissecadas
das abóboras dessangradas
do canibal à espreita nas butiques, uivo

das cercas elétricas
(unhas cravadas na madrugada)
das bocas de fumo e cio de viaturas, uivo

que sempre houve e haverá
na curva das bicicletas
sono de toaletes
na goela cortada da rua
donde saem, feitas em série, alcateias

* * *

Largo dos Curros
é triste a Praça da República
sob a burca da noite

palitos do poste
desenham bonecas platinadas
fantasmas de talco
dialeto de violetas na boca
dos meninos
em camas de papelão

é triste a Praça da República
ao microfone do último metrô

não o ouvem as estátuas, atentas
ao mugido de um touro assassinado
nunca dirão o que sabem, as estátuas
e que não esquecem

 

 

 

Outono 2017 / Não Temos Tempo de Temer a Morte

Rosana Piccolo

Publicitária e poeta paulistana. Formada em Filosofia, pela USP, e em Jornalismo, pela Fundação Cásper Líbero. Autora dos livros de poemas Ruelas Profanas (Nankin, 1999), Meio-fio (Iluminuras, 2003), Sopro de Vitrines (Alameda, 2010), Refrão da Fuligem (Patuá, 2013), Bocas de Lobo (Patuá, 2015) e da plaquete O Pão da Neblina (no prelo). Participação em diversas antologias e revistas literárias no Brasil, Espanha e Moçambique.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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