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A aprendizagem do silêncio

Conto de Sara Timóteo

 

1999.

Os meus pensamentos são pouco exactos e têm-no sido durante todo este tempo. De um modo mais preciso, desde Janeiro. Tento ser outra pessoa – mais bonita e sociável. Não me aceito e não permito que me amem como sou. Desempenho sempre um qualquer papel destinado a agradar e a cativar incautos para que tentem tomar posse (ainda que momentânea) dos meus encantos. Na verdade, creio que, se fosse mais aquilo ou aqueloutro, as coisas quiçá fossem iguais ou piores. Não vivo para corresponder a um ideal, mas para aprender a usufruir das experiências com que me deparo ao longo do caminho (e mesmo disto não estou certa; como, aliás, não estou certa de coisa alguma).

Em 1999, tenho 19 anos e sou aluna de um programa de elite que combina aulas frequentadas por campeões mundiais de várias modalidades desportivas (alguns encontram-se em processo de preparação para os próximos Jogos Olímpicos e aparentam ser belos e destemidos à semelhança dos olvidados deuses de antanho), e pelos alunos mais promissores nas áreas de línguas, comunicação e gestão. Desconheço quais os critérios que me fizeram merecedora de ingresso em tão augusto intercâmbio escolar com a duração de um semestre.

Encontro-me muito longe de Portugal. Nada de Algarve nem de Beira Baixa. Ficaram para trás os longos passeios a pé e as fugas ensaiadas com namorados de ocasião até becos de Lisboa com a finalidade de trocarmos uns beijos furtivos.

Meus pais haviam-me advertido acerca dos perigos à espreita em Haia no decurso de seis meses. Temiam que me transformasse numa pessoa diferente. Contudo, desconheciam a natureza feroz que residia sob o meu exterior impávido e algo plácido – não pretendia fazer experiências que pudessem afectar as mesmas capacidades mentais que me haviam trazido até aqui. No entanto, encontrava-me receptiva a todas as outras vivências.
Sou originária de um meio muito humilde. Cresci com avós que me amavam e que me criaram enquanto os meus pais não me chamaram de volta ao lar após uma reconciliação tempestuosa que ocorreu no dia em que fiz 12 anos. A minha avó chorou por mim no dia em que se sucedeu esse reencontro. Hoje, já não existe ninguém que chore por mim.

Apesar de haver mais bens materiais e, em teoria, condições mais prósperas de vida, foi a partir dos 12 anos que conheci a pobreza e o desamparo (menina e moça me levaram).

A minha vida esboçou todos os tons da humilhação; por esse motivo, sinto-me solidária com os oprimidos. Compreendo a fatalidade que se encerra em qualquer gesto de resignação. Reconheço, ainda, o ódio de quem inveja os que lhe são próprios por terem melhor sorte, enquanto o pouco que lhes calha é divulgado como parte de um plano de caridadezinha qualquer.

Quando entrei para o primeiro ano do curso superior, era já especialista em afirmar, com um ar contristado, que não podia sair à noite devido à vida familiar e em sair com homens e deixar que ficasse a cargo deles o ónus de todos os consumos que fazia.

Já nessa altura, recusava aos meus colegas todas as fotocópias que tirassem em conjunto, alegando que as tiraria mais tarde. Não podia comprar livros e confiava apenas nos meus apontamentos – se os colegas me perguntavam algo relacionado com a minha familiarização com a matéria dada, afirmava ter consultado os livros em bibliotecas onde tais exemplares não existiam, tudo isto enquanto assistia ao desfile de dinheiro a sair de outras carteiras de um modo constante.

Por fim, quando recebia o meu ordenado, não resistia a roubar a felicidade dos outros por um dia ou dois. Desta forma pouco avisada, ficava sem proventos até ao próximo mês, subsistindo das recordações provenientes de uma ida sozinha ao cinema ou a um restaurante muito económico. Os meus pais zangavam-se deveras comigo por não saber poupar nem arranjar-me. Não compreendiam por que não investia todo o meu salário na aquisição de roupa. Repetiam-me que era feia e que mais desmazelada e sem gosto me tornava ao não querer apoquentar-me com nada.

Foi neste contexto que a bolsa de estudo me foi atribuída.

É Fevereiro e encontro-me aqui há cerca de um mês. Persigo os homens belos e desenvolvi uma nítida preferência pelos que se preparam para os Jogos Olímpicos. Tenho um caso com um patinador dinamarquês com a idade de 21 anos e, mais tarde, assumirei uma breve relação com um ginasta russo de 19 anos. Descubro em mim uma nítida atracção por raparigas de olhos azuis e recebo vários convites para me juntar a elas nas festas do SooS a que compareço em determinadas ocasiões.

É-me muito difícil acompanhar o ritmo das aulas, pois espera-se que tenha uma rotina de actividade física muito intensa e o semestre académico é dividido em dois trimestres com os maiores especialistas em gestão, desporto de alta competição e linguística de todo o mundo.

Alguns dos meus professores constam nos manuais de gestão utilizados na minha faculdade – e em qualquer outra. Um deles diz-me que sou especial e que crê que serei uma inovadora de grande envergadura. Eu própria não apostaria em mim sob esse aspecto, pois não sei bem quem sou, nem sequer do que gosto.

Cogito, nesta manhã de Fevereiro, que a forma de reagir aos acontecimentos revela a todos que possuo uma personalidade evasiva, egocêntrica e orgulhosa. Considero que a minha vida é uma sucessão de fugas imaginárias que se desintegram e me deixam, no final, o legado de um vazio que logo me apresso a preencher com outros produtos da imaginação: distorções cognitivas e esperas. Aliás, perder tempo com pessoas e situações inacessíveis é uma especialidade minha, bem como oscilar entre a auto-exaltação e a auto-punição. Só em Haia disponho de oportunidade para reflectir nestes assuntos de pendor íntimo, dado que em casa dos meus pais me encontro sob a égide de uma lógica quase medieva em torno dos meus comportamentos e atitudes enquanto jovem mulher.

O início do dia apresenta-se marcado por um nevoeiro muito espesso. Num primeiro momento, não dou pelo canal agora ao ar livre à porta da minha residência em Rijswijskseweg. Já não há estrada sobre o canal e eu, tal como os colegas que não saíram de casa antes desta hora, encontramo-nos impossibilitados de circular e de comparecer às aulas. Ninguém percebe o que se passa. O fornecimento de electricidade foi interrompido pelas autoridades.

É então que oiço uma espécie de resmonear constante a que se sucede um ruído similar ao de vidros partidos. De imediato, distingo o som de passos que se deslocam com muita rapidez e um crepitar. Um automóvel encontra-se em chamas na entrada sul da nossa residência. Ninguém consegue reunir pistas sobre o sucedido.

Reparo em vidros partidos perto do veículo. A confusão instala-se de súbito quando as pessoas que se encontram dentro da residência iniciam uma sucessão de gritos em várias línguas.

Cá fora, vejo centenas de mulheres que, com um lenço na cabeça e vestidas de cores claras, correm por entre os destroços de garrafas preparadas para explodir. Algumas destas mulheres tapam as bocas com as extremidades dos lenços e gritam sem fazerem uso da voz. Deixam um rasto de sangue pelas ruas, dado que o calçado utilizado dentro das casas não é próprio para enfrentar os obstáculos do percurso que tomam até se reunirem. Os pés ficam retalhados pelos vidros. Algumas apertam as filhas, muito belas, contra si - e choram.

Constato que aqueles atletas de corpos ebúrneos, fortes e belos se revelam pouco úteis para quem quer que seja. Mantêm-se, na maior parte dos casos, dentro dos quartos, trancados, à espera que tudo passe.

Apercebo-me de que a turba de homens e rapazes regressa a Rijswijskseweg. Não tenho tempo para subir as escadas da residência e para me trancar no meu quarto. Opto por me ocultar aos olhares destes homens numa parte mais resguardada da lavandaria comum. Um dos rapazes entra na lavandaria e brinda-me com um olhar curioso. Tem uma garrafa com ele que agita, sem cessar, na mão esquerda. Levanto os braços à guisa de rendição. Ele sai da lavandaria. Tudo se passa sem que uma só sílaba seja proferida por um de nós.

Subo as escadas e bato à porta de cada um dos 50 quartos que constituem parte da residência estudantil. Sugiro que nos reunamos nas áreas comuns em pisos térreos, para que nos seja outorgada uma oportunidade de fuga em caso de lançamento dos explosivos por parte dos manifestantes curdos através das enormes janelas do número 342. É debalde que me debato com a premência de empreender algo que nos retire desta situação. Alguns alunos começam a ter notícias por parte dos países de origem. Sabemos que se trata de um protesto dos curdos e que foram feitas reféns a esposa do embaixador da Grécia e o respectivo filho, com a idade de 8 anos.

Todos nós, de certa forma, permanecemos prisioneiros daquele silêncio que se segue ao ruído e às explosões localizadas originadas pelo lançamento de explosivos caseiros. O chão está juncado de chinelos macios manchados de sangue e de lenços representativos de uma paleta extensa de cores claras. As mulheres abrigaram-se no supermercado turco. Algumas desistiram de viver nesse dia. Outras prosseguiram a vida que haviam construído para si.
As minhas reacções são intensas e centram-se nas possibilidades de escapar (muito reduzidas) e de proteger a minha integridade física, bem como a dos meus colegas de residência.

Todas as questiúnculas com que me torturava até então perderam importância. Os casos, as festas, as disciplinas em que sentia mais dificuldades, tudo desabou em face daquele silêncio.

Assomam límpidas as palavras de Irene Lisboa, imortalizadas no poema “Mental: quase ou nada sentimental referentes a indómitos ódios e à liberdade vã e inútil que se revela como uma riqueza pertencente aos verdadeiramente miseráveis.”

De que nos vale, de facto, a liberdade numa tal situação? Somos alvos marcados para abate. Aguardamos pela nossa hora, uns com corpos olimpicamente dotados para o desporto, outros com mentes de elite que pouco podem fazer para resolver uma situação de redução de liberdade por forças externas com as quais é impossível dirimir argumentos. Que estas forças correspondam a homens curdos que arrasam as ruas de Haia por via de explosivos caseiros corresponde a um acaso. Este confronto com a limitação da possibilidade de agir poderia ocorrer no Ruanda ou numa loja de animais da Beira Baixa. Convertemo-nos num grupo de seres dotados de um propósito ao sermos reduzidos ao mínimo essencial – ou nem isso. Reconhecemos em nós – e no outro – o que nos une: a nossa condição de seres humanos que enfrentam o silêncio.

 

 

 

Outono 2017 / Não Temos Tempo de Temer a Morte

Sara Timóteo

Sara Timóteo publicou Deixai-me cantar a floresta e Chama fria ou lucidez em 2011 pela Papiro Editora na sequência da atribuição, respetivamente, do 1.º e do 2.º lugar no 2.º Concurso de Poesia Aníbal Faustino em 2009 e 28.º lugar no Concurso Internacional de Poesia promovido pela Universidade de Sorbonne – Paris IV no decurso do mesmo ano. Publicou em 2012 Refúgio Misterioso (conto longo); em 2014 publicou Os Passos de Sólon (prémio Mensagem Notável atribuído pela Lua de Marfim Editora), Elixir Vitae e Os quatro ventos da alma (menção especial no Prémio Literário Glória Marreiros 2014), todos através da Lua de Marfim Editora. Em 2015, publicou O Telejornal (peça de teatro infantil) através dos Cadernos de Santa Maria. Em 2016, publicou O Corolário das Palavras (Rui M. Publishing, ebook) e o livro de poesia Refracções Zero pela Orquídea Edições (Grupo Múltiplas Histórias) como resultado do 1.º prémio de poesia resultante da participação na colectânea Palavras de Veludo. Tem dois livros de não-ficção e um livro de poesia bilingue publicados nos E.U.A..

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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