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Poemas úmidos

Coletânea de poemas de Ana Beatriz Domingues

 

poemas úmidos

as fotos que nunca tiramos
hei de revelar em Atlântida

 

* * *

 

itinerário: visão

eu y tu, mão dadas. enquanto a garoa cai fininha, o minhocão sorri pros nossos pés sujos de chão. perco seu telefone, quer dizer, mudo o meu. num ato falho infantil de quem deseja o impossível. status sereno de Facebook. não temo(s). mas a promessa das alturas y o café dos peixinhos de pedra, me dá ganas, me dá ganas, amor! estou só na sua lua, ali inundando a casa 7. me esqueço de ti no sertão e te canto em meio ao manguezais. não sei mais onde te guardar y confesso a covardia de jamais te expulsar da nossa cidade de origem. nossas brânquias em neon, enquanto teu olho-relógio entoa tic.

atravessamos assim - uma última vez - o mar de Chapultepec, fingindo nunca mais ouvir falar da contaminação.

os dioses aqui cantam em nahuatl y bebem água miel dos magueys.

nós, que não olvidamos o deserto e desejamos imperativamente água, falamos em voz alta o nome de _

Sonora.

no tempo da conquista, dançávamos as mariposas e os colibris
e bastava.

* * *

 

todos os dias penso em te escrever um cartão-postal
separo as conchas, as sementes e as ilhas
disponho-as ao modo de um mapa em relevo
a cartografia do nosso afeto
intermitente
os sambaquis se elevam à medida que entramos nas grandes fossas
abissais do nosso tempo
soníferas
com azulejos de líquens e outros musgos bem chiquitos
os corredores estreitos da casa em que
toco a campainha e os peixes-espadas cantam teu nome
telefone apenas para segurar o horário naquela mesa de café de bule
maresia colada ao ouvido
zunido quente
60 minutos num motel de nome verde
como os mangues e as aves migratórias
dou adeus aos teus olhos
avistando de longe o minhocão
o mergulho que evito
é o salto desse arranha-céu com tentáculos
 

* * *

 

blue,

meus olhos estão cheios de água do mar. a cor do Caribe é igual ao céu quando desperto cedo, os tangarás sempre voam em grupos de 10. meu exército anda à cavalo, penteio a crina com tua água miel. corremos nuas - a areia fina - a pele muito quente feito o ventre dos pássaros marítimos. flutuamos, as penas todas em saliva. penso em ti, engulo as palavras para que se convertam em jaguares. guardo tudo no imenso caracol de Marco Antonio. quando sinto saudades, o toco do oriente ao poente, uma curva com todas as sete cores. já ouviste o som das cores, blue? já ouviste assim con tu ojo in? olho por muito tempo as palmas de mis manos, escrevo uma oração, o sambaqui já está pronto para partir, estamos iniciando a reconquista, vamos precisar de novos anzóis. nessa garrafa que nos lanço ao mar é no teu olho que guardo as memórias que não ouso esquecer. nós duas encaracoladas no fundo de uma laguna turva em chiapas. as garças cantando tu à beira azul.

 

 

 

Verão 2018 / Nebulosa: ficção científica escrita por mulheres

Ana Beatriz Domingues

carioca, navegante, tem 34 anos. acredita em Astrologia, Atlântida y nas revoluções. alguma poesia-palavra em bentivicio.blogspot.com; alguma poesia-imagem em instagram.com/bentiviss

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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