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Linha de montagem

Conto de Ana Gama

— Pega o teu braço do chão.

Dudu já estava familiarizado com os tons de voz da instrutora Vicentina. Se houvesse alguma espécie de painel visível no rosto dela, certamente indicaria um nível crítico de paciência no momento.

— É que... ele quebrou.

— Não. In. Te. Res. Sa. — Essa pausa entre sílabas era um forte indício de fúria iminente. — Esse braço não vai ficar aí no chão, nem inteiro e nem em pedaços.

— Acho que tem uma parte faltando.

— Você sabe quantas pessoas gostariam de ter um braço? 

Dudu sempre sonhou com a coragem de retrucar com uma gracinha. Por exemplo, agora, responder a ela o número exato de pessoas que gostariam de ter um braço. Não seria um cálculo difícil. O número de pessoas que gostaria de ter um braço com certeza seria o número de pessoas que possuem um braço subtraído do total de pessoas do perímetro considerado.

E ele tinha que concordar que seria um número enorme.

Pegou o braço do chão, tentando juntar os pedaços. Tinha só desmontado mesmo. Talvez a instrutora Vicentina tivesse razão e ele não estava se esforçando o suficiente.

Dudu tinha treinos todos os dias porque queria outro olho. Ninguém ligava muito para dois olhos por ali, e até viam como um sinal de ostentação frívola. Mas Dudu queria muito ter dois olhos. Trocaria aquele braço pelo olho extra, sem dúvida. Ficou com medo da instrutora Vicentina mandar imprimir seus pensamentos e voltar gritando e perguntando quantas pessoas ele achava que gostariam de ter um único olho.

Só que ele estava errado. Sobre tudo. Mas principalmente sobre o olho. Nunca tinha confessado a ninguém a razão desse desejo caprichoso, mas no fundo ele não acreditava nos arquivos e nas informações absorvidas no treino sobre a visão. Sempre se dizia que o segundo olho era supérfluo, e que às vezes até atrapalhava o foco. Dudu suspeitava que isso não era verdade. Acreditava, secretamente, que cada olho adquirido conferia a seu dono mais visão.

Não um campo de visão maior. Mais visão. No sentido qualitativo.

A verdade é que Dudu não se contentava com o que via. Não acreditava que aquilo, o mundo, era tudo o que havia para ver.

 

Tudo isto estava no relatório impresso. A instrutora Vicentina tinha lido tudo, como ele temia. E mais uma vez ele estava errado, porque ela não voltou esbravejando. Sem que ele — ou ninguém mais — percebesse, olhou para Dudu imersa numa ternura quase maternal.

Foi bom ter solicitado essas impressões. Assim pôde saber porque Dudu estava se esforçando tanto. Agora ela sabe que deve impedi-lo. Deve interferir em seu treino o quanto puder, de forma que ele jamais consiga créditos suficientes para um novo olho.

Ele não suportaria. Tanto esforço e dedicação para descobrir que as informações sempre estiveram corretas, e que simplesmente não há mais nada para ser visto.

Se ele falhasse nesse treino, só poderia solicitar um semelhante após mais de treze cometas. Talvez não desistisse totalmente, mas não importava.

O olho ficaria esperando Dudu num horizonte imaginário, e tudo de ruim que lhe acontecesse seria mais fácil de suportar sabendo que o olho estava lá e que um dia seria seu. E justamente para se manter nessa posição, o olho jamais poderia ser realmente seu.

Era para o bem dele. Ela tinha certeza.

 

 

 

 

Verão 2018 / Nebulosa: ficção científica escrita por mulheres

Ana Gama

Ana Gama tem 35 anos e nasceu em Santos, onde começou a escrever contos e publicá-los em fóruns da internet. Em 2001, mudou-se para São Paulo, onde mora até hoje com a irmã e sua gata Boo. Cursou Letras da Usp e foi funcionária pública por quatro anos antes de decidir se dedicar integralmente a dar aulas de inglês; hoje é professora do Ensino
Fundamental. Grande fã de obras de terror e ficção científica, passou a escrever mais contos nesses gêneros nos últimos anos. Seu conto "Ninho Vazio"; está em vias de publicação na antologia Mulheres Contistas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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