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Dona Nanã

Conto de Drielle Alarcon

 

senso de comunidade _ o vigia da rua veio conversar assim que nos mudamos. sondou as nossas ocupações, sugeriu que eu fosse mais grata aos meus empregos, com setenta e dois é raro achar frilas bons. não questionei. a segurança do bairro era feita por ele, um cachorro e uma vigia, que recebiam por noite -- ela, um pouco menos que os outros dois, naturalmente. então alertou que a vizinhança não aceitava perturbações. era uma comunidade de gente reta distribuída em plano inclinado, o que permitia uma ampla visão do quintal duas casas abaixo. durante toda a conversa, minha neta se encolhia sob o tanque segurando duas codornas no colo.

feiras rodantes _ soubemos pelo twitter. quer dizer, minha filha soube e gritou da sala: mã, um protesto, localizaram outra fonte. seguimos o tópico. parecia só um anúncio daqueles filmes de família na estrada. mas em uma foto tirada no ônibus, do bolso do casaco de uma mulher, saltava um ramo de folhas. na legenda se lia: a jornada de um salsão #feirasrodantes, alguém respondeu: quando você realmente não usa um casaco há uma década. eu ri. continuamos, afoitas, comendo com os olhos, antes que apagassem tudo. outra imagem mostrava batatas, no banco de uma praça, e um abacaxi foi captado saltitando numa sacola, no aeroporto. ligamos a televisão e a polícia federal afirmava ter prendido todos os envolvidos. na matéria, um dos meus absurdos favoritos: uma tarjinha preta cobria o talo dos legumes e borraram o contorno de três tomatinhos-cereja. peguei a caneta e comecei a desenhá-los. preciso impedir o arrocho da língua. a recusa a esquecer é meu primeiro ato de resistência, que pratico nas horas vagas.

as frisadeiras _ as frisadeiras se reúnem em grupos, o trabalho faz mais sentido assim. sediamos um dos encontros e apesar da tensão que retesa minha filha, acho a coisa toda muito fascinante. a mão esquerda segura um palito de sorvete ou de dente, algumas preferem um garfo, que marca a dobra no papel alumínio, aplicada pela mão direita. ouve-se o pac-pac ininterrupto dos palitos sobre o alumínio, uma pequena ala de tamborins, e, na outra ponta, surgem as réplicas de marmitex, temidas pelo governo. mais tarde, enquanto bandeirinhas de tv à cabo balançam nas escadas presas aos carros, são as marmitas que cortam a cidade, trepidando entre rolos de fios e conectores. conduzidas e entregues por essa gente que chamamos, carinhosamente, de destacamento de cabistas. de tempos em tempos, uma mulher se ergue, endireita a coluna e alcança o rolo de papel alumínio. o antebraço dá medida a cada corte, as mãos provocam uma pequena ondulação no papel, o suficiente para aliviar a tensão, e então se afastam com fúria (há algo de muito poderoso em rasgar uma folha de alumínio num gesto só). os locais dos encontros se alternam discretamente, seguindo as jornadas repetitivas que se embrenham na periferia, sob a cortina da automação. nas ex-cozinhas de itaquera, guaianases, cangaíba, onde o trabalho deixou as fábricas e sentou no colo das mulheres, sempre há espaço. não faltam locações. e todas nós sabemos, por experiência, que a unidade menor é o cento, o que é bem útil para o alcance da coisa toda.

um horizonte limpo _ levaram as últimas árvores frutíferas. higiene urbana, controle de pragas etc. o argumento definitivo foi a ociosidade dos recursos: a nossa cultura é refratária à ideia de uma produção descontrolada. e é até vergonhoso admitir, mas a falta das frutas não me incomoda tanto quanto a ausência dos pássaros. sento na cadeira ao lado da janela e espero, com olhos de pomar.

 

 

 

 

Verão 2018 / Nebulosa: ficção científica escrita por mulheres

Drielle Alarcon

Drielle Alarcon é formada em Filosofia e Comunicação Social, ambas pela Universidade de São Paulo. Escritora, interessa-se por narrativas contra-hegemônicas. É uma das envolvidas na produção da Revista Fantástika 451 e, atualmente, prepara o seu primeiro livro. ​

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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