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Editorial: Nebulosa / Verão 2018

de Raquel Parrine

 

Imagem: Anônima

 

A versão curta da história é: a ficção científica é um gênero literário particularmente machista. Não porque mulheres não escrevem ou porque ele não leva em conta as particularidades das políticas de gênero, mas porque a recepção desses textos tem sido espetacularmente cisheteronormativa e branca. Traduzindo: mesmo que existam (e existem!) histórias incríveis, o que faz sucesso mesmo em termos de ficção científica é a saga do homem branco, que sai por aí exibindo suas habilidades superiores que parecem ter vindo do além. Filme atrás de filme, livro atrás de livro, parece que a gente tá tendo só versões diferentes da mesma trama, que acaba sempre com a vitória do bem contra o mal, com a reafirmação da superioridade da civilização Ocidental. Tem sido difícil convencer as pessoas de que, ao contrário, a ficção científica é um gênero especial, que tem o potencial de pensar alternativas radicais de como viver o mundo e de mostrar diferentes tipo de respeito pelo diferente. Pensando nisso – e também servindo os meus interesses particulares de passar horas lendo histórias de robôs – a Raimundo decidiu dar a sua pequena contribuição para o fomento da produção de contos, poemas e ensaios escritos por mulheres que se propusessem a cutucar essa ferida. Ninguém vai salvar o mundo hoje.

A versão longa da história tem a ver com uma reflexão de como intervir no cânone, o que tem sido uma proposta feminista de desde sempre. A Virginia Woolf escreve sobre isso num texto chamado, eu acho, “A posição intelectual das mulheres”. Nele, ela contesta um editor de um jornal que fez uma lista de obras fundamentais sem citar nenhuma mulher. Ele, #NemTodoHomem, responde que infelizmente o mundo é machista e as mulheres não puderam produzir tanto, porque foram oprimidas. Ao que Woolf responde com uma lista enorme de nomes, finalmente justificando que, apesar de tudo, as mulheres produziram (e muito), mas que o problema está na recepção desses textos e a falta de prestígio que eles ainda encontram. Moral da história: a bola está do nosso lado da quadra. É hora de a gente se responsabilizar por esse cânone e responder, com a nossa energia e com o nosso interesse, aos problemas que a gente enxerga na forma como se constrói a cultura literária.

No campo da ficção científica, autoras como Margaret Atwood e Ursula le Guin são tão complexas e fundamentais quanto Isaac Asimov ou Phillip K. Dick. Só que a gente vê quatrocentas adaptações, traduções e edições de Eu, robô ou Os androides sonham com ovelhas elétricas?, mas eu aposto um x-bacon que você nunca ouviu falar na trilogia de Terramar. Não me leve a mal, eu amo Blade Runner e ai de mim ficar comparando quatro autores que fazem o mundo ser um lugar melhor de se viver, porém já passou da hora de se perguntar, com seriedade, o que acontece com o trabalho das mulheres escritoras de ficção científica? Falando sério, se a Ursula le Guin fosse Úrsulo, eu tenho certeza que já teria um país com o nome del@.

POR OUTRO LADO, eu acho que o problema não termina com a questão da representatividade. Quer dizer, eu não acho que o fato de essas duas autoras serem mulheres é a única questão. E isso não quer dizer que o assunto seja menos feminista, mas que o feminismo não se restringe a questões de representatividade. Me explico. Quem já leu le Guin – digamos Os despossuídos, que está com uma edição nova na editora Aleph, depois de muitos anos sem circular nas livrarias brasileiras – sabe que além de ser uma mulher escrevendo ficção científica, ela também considera questões políticas muito profundamente na sua obra. Os despossuídos é uma estrapolação sobre as possibilidades e os obstáculos de um projeto de sociedade baseado na não-acumulação de bens e de lucro. O nível de maturidade dessa reflexão suplanta qualquer simulação de mundo onde o bem e o mal se opõem. Ninguém se distrai com a beleza de dois sabres de luz se chocando contra um fundo de lava vulcânica, mas sente em si a dor do exílio, a solidão de se ser quem se é. São propostas diferentes e eu gosto muito de planetas vulcânicos. O que estou fazendo é pensar se reflexões políticas complexas, que podem acabar numa crítica às bases sociais e econômicas da nossa sociedade, cabem ou não numa recepção que valoriza a ação e o gráfico.

E é claro que tudo isso é mais profundamente problemático no contexto do Brasil. Em vários casos, mais que um personagem de ficção científica possa viajar para qualquer momento da história ou para qualquer planeta, ele nunca vai para outro país. Pensa em Doctor Who. O doutor vai lá pra literalmente o fim do universo, mas não vai pro Japão, ou aprende outras línguas. É um pouco deprimente. Há um problema, portanto, em como as narrativas de ficção científica enxergam esse cruzar-se com o outro, no sentido de que eles são sempre e objetivamente o outro: um robô, um molusco, um woie. A melhor ficção científica embaça essas divisões entre o humano e o não- humano. Como aquele monólogo maravilhoso de Blade Runner, em que se pergunta qual é o valor dessa vida alheia. Neste caso, os robôs, que parecem com a gente, se rebelam e exigem a supremacia dos valores de vida e morte. Os humanos lutam para ter essa supremacia de volta e ganham (ou perdem), fim. Entretanto, há um terceiro nível de pergunta. Como fica se nós somos os estranhos de nós mesmos? Por exemplo, em O planeta do exílio, em que um grupo de aliens migrantes, esperando serem resgatados, descobrem, depois de gerações, que nunca vão de verdade sair dali. O que acontece quando a sua missão de supremacia, motivada por valores altos como compartilhamento de conhecimento, é na verdade ao mesmo tempo uma missão colonizadora de aniquilação do outro? E se pusermos as lentes do exotismo para enxergar o nosso próprio modo de viver? – estas são as questões que as obras de le Guin e Atwood se perguntam.

Na verdade, a relação entre feminismo e ficção científica é extremamente sororal. Não só o gênero nos dá possibilidades de imaginar uma situação em que o patriarcado não tenha sido opressor desde o começo da civilização, como de fato nos permitiu imaginar uma subjetividade que não esteja contraída pelo seu “destino” biológico. Donna Haraway, filósofa americana, imagina o futuro dos ciborgues como radical e revolucionário para imaginar uma sociedade sem gêneros. Paul Preciado, um filósofo trans espanhol, escreve sobre a nossa sociedade fármaco-pornográfica, em que as identidades estão determinadas pelas possibilidades técnicas da nossa era (particularmente os tratamentos hormonais). Ou seja, o pensamento ficcional particular do sci-fi, em que a ficção é mais “espessa” e suas possibilidades mais radicais, tem sido extremamente afinado com a teoria de gênero mais moderna. Isso desde sempre, se consideramos que Mary Shelley, a autora de Frankenstein, era filha de uma sufragista famosa. O que estou tentando argumentar, no final, é que, apesar de seu culto machista, a ficção científica é um gênero particularmente feminista. É um gênero que tem encontrado longevidade, produtividade e complexidade nas mãos de mulheres. Por isso, não foi nada surpreendente ter recebido uma quantidade grande de textos que desafiam seus próprios limites e que incorporam a ficção científica de formas extremamente criativas. Espero que vocês apreciem a leitura da mesma forma que nós apreciamos.

Boa leitura!

 

 

 

 

 

Verão 2018

Nebulosa: ficção científica escrita por mulheres

 
Adrienne Rich

Ana Beatriz Domingues

Ana Gama

Ana Júlia Carvalheiro

Ana Rüsche

Camila Quintanilha

Deborah Happ

Drielle Alarcon

Juliana Guida

Lena Luiz

Lidia Rogatto

Lu Ain-Zaila

Mariana Ruggieri

Moema Villela

Nathalie Lourenço

Noélia Ribeiro

Raquel Parrine

Samanta Esteves

Tatiana Delgado

Tracy K. Smith

Thaís Moraes








 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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