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Sedimentares

Conto de Juliana Guida

– Quem são ‘eles’?
– Não sei. Até o último brumado ela estava alocada nas usinas, bem. Estas mensagens começaram quando foi designada como enfermeira.
– Falta pouco para o próximo brumado, o retiro pode piorar a situação.
– Sim.
– Eu acionaria o Serviço de Escuta e Ressignificação.

O aviso sonoro soou baixo, o rapaz se levantou, ergueu os olhos para encará-lo, já arrependida por ter compartilhado aquilo. O texto ainda pairava aberto no canto direito de sua visão:

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“Hoje tentei usar o modo manual, acabei como as roupas manchadas de cinza e jantei apenas uma porção queimada de suplemento. Incrível como não sabemos de mais nada. Fui uma das que entrou na zona de desconexão no último brumado. Fiquei completamente só, sem nenhum dispositivo de comunicação ou monitoramento. Você não tem ideia!”

Abriu a segunda mensagem, não antes de confirmar que havia suspendido o acesso ao seu campo:

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“É incrível, irmã. Ela invade tudo, a bruma preenche por todos os orifícios: quer saber o seu cheiro, mas não há mais cheiro; seu gosto, mas é como tentar descobrir o gosto da própria língua, e o que se passa com os olhos?! O que se enxerga quando a pupila se transmuta em nuvem? O que eles poderiam contra isso? Não, perderam-me.”

Passou mais uma vez em revista o perfil da irmã, seu avatar sorria, mas com as cores esmorecidas, ainda indisponível.

Brincou virando de leve a cabeça, posicionou o seu avatar contra a janela do edifício. Piscou intencionalmente e redimensionou o aplicativo. Estava como uma criança que experimenta pela primeira vez o implante ocular.

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“Desliguei tudo ou, pelo menos, os dispositivos que não interferiam na minha manutenção biológica.

Aumentei ao máximo o meu contraste, quase não percebo os alertas de mensagens e de publicidade, ficam fininhos, assim como uma cicatriz antiga sobre o painel ocular. Foi difícil me locomover nos primeiros dias, tudo tão claro. Parecia que eu tinha voltado aos meses do brumado. Mas muito mais difícil foi ignorar todas as solicitações! Respondo agora somente o mínimo. Não pretendo migrar de enfermeira para paciente!”

Não conseguia mais ficar sentada, foi até o banheiro feminino, sua bexiga estava vazia, mas passou o lazer mesmo assim sobre o baixo ventre. Quando encarou o display do espelho suas informações oculares se fundiram às dele, minimizado a conversa e o perfil da irmã, dando espaço para notícias sobre a queda dos preços, anúncios de novos aplicativos e algumas mensagens corporativas.

Voltou mais concentrada para seu posto, mas quando trocou de turno, o trabalho repetitivo e braçal da mesa de montagem levaram-na de volta às preocupações:

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“Sabe, a autodepuração é uma prática muito comum nos hospitais, um horror completo. Pessoas futricando a própria têmpora, a procura dos implantes. As vezes temos que amarrar-lhes as mãos. É inútil tentar convencê-los que já não os possuem.

Os médicos insistem que isso é sintoma da falta, que buscam os implantes porque ainda os desejam. Acho que os médicos nunca olharam um doente com síndrome de Hastepurg. Eles buscam por que ainda não desejam”.

Uma notificação envolta em dourado pupilou em seu campo: era esperada nos escritórios superiores.

– Não, hoje não!
Desabafou mais alto do que pretendia, várias cabeças se voltaram em sua direção. Desculpou-se com os colegas, sorrindo como podia.

Solicitou outra pausa; quando entrou no banheiro virou-se rápido contra o display do espelho. Só poderia ser ele, H. Ele, era o seu chefe, ela sua amante. Não conseguia definir bem a relação que mantinham, não gostava de saber que era comprometido, por outro lado o buscava por que sentia prazer em ser desejada por um homem poderoso. Não foi isso que concluiu na última sessão de ressignificação? Mas por que então nunca queria encontrá-lo e, mais ainda, por que sempre ia?

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“Ontem fui formalmente reprimida, pelo visto tenho descumprido mais minhas tarefas do que previa, meu painel de notificações chegou a somatória absurda de 8947 pendências! Posso imaginar o frio que sentiu só de imaginar esse montante!

Consegui me safar graças aos ótimos resultados do meu trabalho, disse que estou fazendo um experimento sociológico, um sacrifício, me aproximando das condições dos pacientes. Você precisava ver a cara do diretor, me dispensou com meia dúzia de palavras sem saber o que fazer”.

A palavra reverberou reconhecimento dentro de si, ela também se sentia sacrificada, mas por quê?
Seu sensor de notificações brilhou em urgência por trás das mensagens, junto com um aviso de que seu tempo de pausa estava acabando.

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“Tenho medo. Os pacientes me olham como se me reconhecessem, mas não serei igual a eles! Não sei se você pode me entender – quero tanto acreditar que sim – o que os pacientes daqui não puderam fazer foi tirá-los de si.”

“Lancei ao fogo o cabresto que me colocaram mais meu olhar ainda se volta para as mesmas direções. Este rastro é a verdadeira doença!”

Andava de um lado para o outro dentro da cabine. Não importava o que ela achava, era impossível que não estivesse transparecendo seu estado para as outras pessoas. Tinha que tirá-la de lá, antes que fosse tarde. Sua última mensagem era completamente incompreensível:

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“Os doentes, na sua falência, são meus mestres! E eu sou sua maior discípula, por que os renego e os maldito e não quero para mim sua experiência. Ah, como os amo – tanto que os traio a cada dia! – como odeio os médicos e os administradores, a eles sigo com a máxima diligência.”

As notificações urgentes eram de H., demandando sua presença, além de uma advertência formal do setor Interpessoal por ignorar a solicitação.

Ficou feliz com esta última, respondeu direto para eles: justificando a falta por uma grave doença da irmã a quem, inclusive precisava assistir pessoalmente o que lhe obrigava a encerrar mais cedo seu expediente. Não comunicou a mais ninguém, reuniu suas coisas e continuou, não parando sequer quando o portal se tornou vermelho à sua passagem.

Subiu os degraus de dois em dois do transporte noturno, a circulação palpitando em seus tímpanos. Quando passou os portões da fábrica, soltou a respiração. A cidade se apequenava em sua janela, as luzes do vagão foram diminuídas. Sacudiu o rosto, tentando controlar o riso convulso que a dominava.

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“Procure por arquivos corrompidos, são arquivos alterados depois de alguma situação traumática, que repercutiria na vida do sujeito. Quando fazemos os processos de ressignificação eles simplesmente sobrecarregam aquelas memórias com uma multiplicidade de interpretações que acaba soterrando os dados da experiência original.”

Na época, não lhe tinha seguido o conselho. Mas a viagem lhe dava tempo, procurou por dados corrompidos nos últimos meses, quase todos eram arquivos relacionados aos seus encontros com o H. Limpou a tela ocular com impaciência, não queira mexer naquelas coisas, depois voltou a revelia do próprio estômago, por que não?

A lembrança do primeiro encontro se apresentava como um caleidoscópio, as imagens se interligavam, simultâneas e movediças, em cores e sensações diversas:

Ela sentada imóvel no escritório de H. enquanto ele se debruçava para lhe falar ao ouvido, uma mão nas costas de sua cadeira outra apoiada em seus joelhos. Ela sentada provocante, lisonjeada pela investida. Ela sentada contraída, o tom imperioso da voz dele enquanto levava a mão a própria braguilha. Ela sentada provocante, enquanto ele sussurrava em seu pescoço. Ela sentada com medo, enquanto ele se masturbava. Ela sentada com nojo do esperma escorrendo por sua coxa. Ela sentada com vergonha por ter provocado um homem comprometido. Ela sentada excitada pela relação proibida.

Ela sendo levada para o setor de escuta e ressignificação.

Acionou o modo privado e os limites de sua cabine se tornaram leitosos, enfiou a mão na boca para controlar os espasmos. Mas é claro que não precisavam ouvi-la para saber que se descontrolava. Uma moça com olhar simpático, solicitou entrada na cabine lhe estendendo um pequeno transmissor. O objeto azulado pairou em sua frente um minuto a mais do que deveria, mas por fim o levou a têmpora. Os aplicativos abertos foram esmorecendo, jogados para segundo plano, substituídos por imagens suaves e música tranquilizadora.

Antes de sucumbir ao transe ainda acessou uma nova mensagem:

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“Querida,

Minha locação no hospital foi mais exigente do que eu esperava, ainda mais depois do trauma da desconexão do último brumado!

Por favor, trabalhe em suas sessões as mensagens que lhe mandei, com certeza lhe angustiei.

Agora, eu e meu conselheiro decidimos, que o melhor para mim é passar um tempo tranquilo, afuncional. Talvez fique aqui mesmo, onde já me conhecem tão bem, então não espere notícias minhas tão cedo!

Com amor, Ana.

 

 

 

Verão 2018 / Nebulosa: ficção científica escrita por mulheres

Juliana Guida

Juliana Guida, quem escreve esta autobiografia em terceira pessoa, tem trinta e um anos, formada em filosofia,
mestranda em psicologia, vive em dúvida se é ou não escritora, em todo caso, vez ou outra, escreve.

Página da autora
titubeios.blogspot.com.br

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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