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Existência

Conto de Lu Ain-Zaila

— Corre, vai! Anda! Vão nos alcançar! – grita Abini logo atrás de mim, enquanto corremos freneticamente pelo apertado corredor, rumo à cabine da nave Asale, só três metros a nossa frente, só três. E então a ouço gritar...
— Muda o código! Adimu, muda! – o grito dela é visceral e corro mais ainda, a medida certa para abrir a porta e fechar bem sob o braço de um dos tripulantes tomados por uma espécime invertebrada e consciente em termos comparáveis aos humanos. É tudo o que sei dizer.

O membro avariado parecia algo mínimo, vi pelo monitor que estava mais aborrecido pelo incômodo de ter um braço quebrado, agora, pouco útil do que com dor. Isso me fez pensar que dor ou a falta dela nos dava sentido de algo errado ou não, assim como a exaustão física ou emocional e a solidão, que sinto neste exato momento, pois nenhum dos que estão lá fora se parecem comigo, a não ser biologicamente. Não que estas sensações sejam exatamente boas, mas um aspecto humano, sentir algo e julgávamos a relação com outras espécies através deste espelhamento. Mas eles não demonstravam possuir isso de um modo perceptível, talvez fossem capazes de suprimir as conexões nervosas ou ignorar. Jamais entenderei porque não quero saber ou estudá-los.

A única coisa que consigo pensar agora é que... não queria estar aqui, sou uma antropóloga, vim para coletar amostras: terra, água, alguma possível vegetação, nada parecia estar aqui, e avaliar e datar carbonicamente minerais, outros elementos, sabe... analisar e não ser tomada por uma-algo. Abini é quem iria pilotar, nem sei o que faço diante de tantos botões parecidos em forma e cores. Estou perdida. E agora, eu sou a última barreira entre a possível ida deles à Terra. Isso não é justo.

— Precisamos, compreenda, é inevitável sua tomada – disse a copilota olhando para o monitor, como se olhasse diretamente para mim, e logo atrás dela no chão estava a pilota chefe Abini sendo tomada, do mesmo jeito que aconteceu com os outros, primeiro, a espécime escorreu para o seu rosto e então começou a se esvair para dentro de seus olhos, nariz, boca, escorregando como água e então depois de algum tempo, vi em seus olhos que agora se tornara deles, delas, todos e que tinham gostado do próximo passo evolutivo dado: sair da possível água, não tenho dados que confirmem e locomover-se, ter mais sensações. Eu já conhecia o processo, a mente resiste por aproximadamente trinta minutos e depois cessa, a pessoa se levanta e então... é todos.

Foi um grande erro, feio, de principiante, um mal humano. A excitação nos tornou presas fáceis. Devíamos ter usado os robôs de captação e daqui ter operado o laboratório robótico, mas não, tínhamos que “experimentar” a atmosfera do planeta, tirar os malditos capacetes e o pior de tudo, entrar na suposta água, um erro colossal. Aquilo não era um mar e sim “o mundo deles-todos” e agora deixamos de ganhar um planeta para dar o nosso.

E aqui dentro não tem nada, sem comida, água, e não sei quanto tempo isso vai durar, mas eu não posso deixar que entrem e muito menos que saiam daqui, e só me resta tomar uma atitude: mudar o código de ignição, exatamente como Abini me ensinou.

Respiro fundo, prendo minhas tranças usando duas vindas da parte inferior da nuca e me recomponho, isso. Agora aperto o botão e o sistema me solicita o código antigo, insiro, mas como não sou Abini para passar pela identificação biométrica, digito o código restrito em seu lugar e aguardo o reprocessamento, certo, mas então percebo o silêncio, um nada de barulho lá fora, olho para o monitor e percebo que todos sumiram. Não há nem mais um traço de movimento lá fora. O que será que estão fazendo? O que foram fazer?

Finalmente, o sistema me pede o novo código de ignição, digito, um código restrito, digito e então, o último passo, tenho a opção entre o biométrico e o de voz, e claro, o biométrico parece ótimo, mas então paro e percebo que essa não pode ser uma opção, pois nos tomaram em essência, a nossa biologia externa permanece inalterada, a mesma, logo, o de voz é o apropriado.

Respiro fundo e me preparo, tenho que repetir duas vezes, mas então percebo um rangido e tudo começa a piscar. Essa não... o sistema da nave passou para a emergência, e então volto a olhar para o monitor a minha frente, ainda esperando para dar meu código de voz, aperto o botão e ao fazê-lo, sinto que a porta atrás de mim se abre lentamente. Estou perdida, os vejo vindo em minha direção, correndo e só tenho alguns segundos para...

— Sou humana! Sou humana! – grito ferozmente a plenos pulmões duas vezes e assim que me alcançam, resisto, e ouço o sistema dizer - Código de voz aceito - Eu consegui! – penso com alegria, mas fui pega e me pergunto. — Eu vou morrer? A espécime vai me matar?

Começo a cogitar as probabilidades me guiando pelo pouco que vi. Será que vai me fazer assistir impassiva ao que faz com o meu corpo?

Esperneio com todas as minhas forças, chuto, me debato, mas não adianta. Eu sei que não, mas resisto organicamente por ser uma espécie que sempre briga e luta por sobrevivência, mas assim que cinco deles me suspendem e carregam para a sala médica, tenho a certeza de que não serei eu-apenas por muito mais tempo.

Enquanto isso, a minha última visão é a do teto da nave passando e passando, mas antes que tudo termine, fecho meus olhos e tento fazer um filme de adeus ao que sou: ancestralidade, vivências sociais, pertencimento histórico, novas ideias e concepções a partir do que conheço, ou acredito conhecer, sonhos a realizar, arrependimentos. Tudo estará perdido em breve.

Meu nome é Adimu e significa rara em suaíli, língua do Quênia. Minha mãe, brasileira, me deu este nome e meu pai angolano não gostou muito, mas compreendeu o motivo. Era o nome de uma personagem de livro de quando ela era criança, numa visita de autores e autoras às escolas da periferia onde morava, a heroína do livro era negra e fez com que ela se apaixonasse por esse nome.

Mamãe me contou que não tinha grandes metas na vida, mas ouvir aquelas pessoas que saíram de salas como a dela e viraram alguém, a motivaram a ir além. Todos e todas diziam que era preciso estudo e esforço, ela acreditou e anos mais tarde se formava em Letras-Francês numa universidade federal, mas já dominava bem o inglês e entre as atividades da vida, separava tempo para inspirar outros e traduzir gratuitamente documentos de estudo. Era um projeto coletivo de apoio ao acesso de conteúdos que ia desde artigos da revista Science, pesquisas citadas no Nobel a documentos digitalizados da primeira universidade do mundo, Timbuktu, no Mali, África.

Minha mãe era fascinada por aprender e permitir a outras pessoas, acesso a conhecimentos que lhe permitissem um “lugar social” mais consciente, e foi assim que conheceu meu pai, ele aprendera árabe como guia turístico no Cairo, e depois ao se tornar guia histórico no Mali para pesquisadores, ficou fascinado pelo projeto que crescera e por minha mãe, que visitava o local pela primeira vez. Aliás, meu pai dizia que minha mãe era muito mais apaixonada por papel velho do que por ele, e no final das contas, eu também, amo um pedaço de cerâmica ou qualquer outro objeto de séculos, datados por carbono 14.

E então ele veio para o Brasil, se embrenhou no projeto e assim viveram, doando conhecimento a todos que quisessem aprender, o “ter” jamais seria uma barreira novamente e assim me tornei antropóloga, continuei o legado deles e quando vi a chance de escrever meu nome africano, negro, de essência brasileira e sul-americano na história, não resisti, o fiz e agora estava ali, prestes a perder o que me fazia Adimu, humana, e perder isso era pior que a morte.

Os eu-todos me jogaram secamente sobre a mesa, senti dor nas costas e me mantive quieta, a princípio, mas quando vi Abini ou o que sobrara dela, a casca com um daqueles, daquelas em mãos, chorei de ódio e comecei a resistir novamente, ofegante e então ela colocou a espécime sobre meu rosto. Me senti sufocada, engasgada, desesperada, meus últimos sentimentos humanos a flor da pele seriam aqueles e então desmaiei, morri, não sei dizer.

— Mas o que é isso? – perguntei a mim ao acordar tonta e assustada sob um chão rochoso, úmido e frio. Eu estava dentro das Cavernas Cango, na África do Sul, que visitei com meus pais e tenho a lembrança do castigo mais extenso e adorável da minha vida, duas semanas, pois peguei uma pedra para estudar. Ali comecei a ser o que faria da minha vida inteira.

As suas formações de milhares de anos são fantásticas e me lembro de apreciar a sua quietude, apenas quebrada pelo som da natureza ao fundo seguindo o seu curso de milhões de anos.

Por um instante me senti em casa, mas foi quando percebi que mais alguém estava lá, era eu e não era eu ao mesmo tempo.

— Então é isso? Vou ficar vagando em memórias da minha vida? Qual o objetivo de vocês? – perguntei ao reflexo de um eu que não era eu.

— É incrível, as informações que seus “não sei” conseguem captar, imagens, vozes, energia percorre as... memórias. É estranho, vivo, algo é diferente, as suas são carregadas de... esse seu vocabulário é cheio de, palavras, termos, sinônimos e outras... não sei dizer, existe um vocabulário, mas é...

— É complexo, cheio de significados, teorizações e eu adoraria ter esta conversa lá fora, do meu corpo. Eu de um lado da mesa e você de outro.

— Sabe que não, mas... insiste? Qual o sentido, sentido dessa frase? – me pergunta ela-eu.

— Como eu disse é complexo, não é fácil explicar ou talvez seja simples, existem implicações e significantes que dependem do contexto e do assunto abordado, mas as palavras não têm sentido sem que haja um assunto que as signifique no tempo e espaço – respondi complicando ao máximo e o quanto possível a resposta, pois não tinha ideia de quanto tempo fiquei desmaiada e o quanto absorveu de mim.

Ela-eu me olhava “curiosa” e era estranho estar tendo aquela conversa, e enquanto ocorriam as pausas, eu buscava contar o tempo, uma forma de sobreviver e resistir ao que estava acontecendo em minha mente e a melhor forma de fazer isso era tomando a frente.

— Olha, não tínhamos a intenção de entrar em seu mundo, não foi de propósito, apenas foi inadvertidamente feito, não precisa nos tomar e nem o nosso planeta. Podemos ir embora e nunca mais voltar, apenas... nos solte.
— Não sei se é possível, vimos seu mundo e esse “isso” que vocês têm é bom, gostamos, é “muitos”, nunca juntamos com outros-ele cheio de diferentes – disse ela-eu para mim, e compreendi o que estava dizendo, ainda que sem um nexo satisfatório em meus termos de fala.

Em suma, ela-todos estava dizendo que gostava da sensação complicada de ser nós, todas as irregularidades humanas que sentiam eram satisfatórias, talvez excitantes ou saborosas na lógica dela-eu, ou seja, em poucas palavras, nós erámos uma espécie cheia de diferenças que nunca tinham experimentado e agora queriam mais de nós, e eu precisava ao máximo me manter menos deles.

— Então... outros-eles, vieram até o seu planeta? – perguntei tentando entender porque não vimos rastros de outras espécies na superfície daquele exoplaneta.

— Eles-eu-nós que vivia, aqui, antes, depois só, não diferentes mais – a resposta dela me fez cogitar que aquele não era o planeta deles e sim um tomado, onde as diferenças, se existiam foram absorvidas e então nada mais sobrou além de todos-eles-elas iguais, ou seja, o tiramos da neutralidade existencial e demos a eles o vislumbre de um mundo cheio de possibilidades, bilhões para ser mais exata. Mas foi então que me ocorreu que eu era capaz de sentir o incômodo da pedra onde sentara, logo era como estar num sonho lúcido e se eu sentia, poderia ser capaz de perturbar a assimilação que fazia de meu vocabulário, de mim, Adimu, pois como antropóloga eu tinha muito a oferecer, inclusive algo que não gostaria, meu instinto primitivo de sobrevivência. E não pensei duas vezes, avancei sobre ela, foi um susto e a joguei contra a parede de rochas e caí também.

— O que é isso? – perguntou ela-todos ao experimentar algo, talvez dor por ainda ter eu, ali.

— Algo que temos muito em nosso eu e que infringimos a outros para nos defender ou atacar. Não quero seu eu-todos dentro do meu eu, logo... – respondi enquanto pegava uma pedra no chão para atacá-la e foi quando o cenário mudou, tropecei numa mesa de centro e cai sentada no sofá. Agora estou na casa dos meus pais. Onde ela-eles está?

— Querida, você está bem? Vai se atrasar. Eu estou tão orgulhosa de você... – aquilo era uma afronta, a imagem da minha mãe, a empurrei com força e não permiti que chegasse perto, me tocasse. Será que havia feito isso com os outros? Se sentiram como num sonho e assimilaram, desistiram, cansaram? Quanto tempo realmente havia passado? Alguns segundos, tudo é relativo dentro da mente e ela-outro controla a ida e vinda, não eu. Só o que tinha era a chance de dificultar a sua leitura de quem eu sou, o que me constitui e isso teria que bastar para me tirar dela, ou tirar ela-todos de mim.

— Você é persistente, mas vamos chegar lá. Queremos unir vocês – disse ela-outros e aquilo me assustou, está falando mais parecida comigo, articula melhor, o que significava que entende melhor as palavras, me consumia e isso não é bom, preciso ganhar tempo, assim como ela-outros faz comigo.

— Somos diferentes demais, nunca conseguirá harmonia ou nos tornar eu-todos, somos outros-outras-muitos e resistiremos. Eu resisto a você agora – insisti tentando buscar uma brecha que a desestabilizasse.

— Queremos tornar vocês, eu-todos, juntos. Será melhor.

— Não será, cada pessoa desta tripulação é diferente de um jeito, na língua, no rito enquanto humano com suas conexões culturais e pensamentos coesos ou soltos. Vocês-todos são conectados, parecidos e na verdade não gostam disso, e por isso tentam nos tomar, vocês não tem singularidades, privacidade, segredos e por isso buscam assimilar outros-eu, querem o que nos torna diferentes, muitos-muitas-vários, vocês querem ser eu-só, mas são todos-chatos – resolvi usar um insulto simples e percebi que aquilo a incomodou, pois não foi vociferado, lhe dei a chance de absorver o significado e então, me calei.

Resolvi tentar uma outra abordagem, se a natureza deles era a assimilação das diferenças e depois passividade pela conexão eu-todos, nós éramos o contrário, apenas o eu-só, pois a ideia de unidade não tinha a ver com sermos iguais em pensamentos e atitudes, mas sim diferentes e complexos com nossos contextos sem que isso significasse estar acima um do outro, em tese, essa questão humana era histórica, uma complicação não resolvida até os tempos de hoje.

Me dei conta que a cada tomada de um dos tripulantes, mais ficavam a volta, ou seja, os eu-todos estavam ao redor da mesa em conexão, assimilando tudo que ela-todos tirava de mim, e se partilhavam o tudo-outros e depois nada sobrava, aquela era a curva de regularidade que eu precisava desestabilizar, fazer com que almejasse experimentar o eu-só, para além dos outros-ela, e que lugar mais interessante para se fazer isso do que dentro da própria mente.

— Inveja é o ato de desejar o que não é seu, tomar para si o que é de outro, e não dividir com ninguém, sem eu-todos – logo após dizer aquilo, fechei os olhos e me recostei na poltrona.

Era a minha última cartada, comecei a relembrar com a máxima reprodução de detalhes, sons, cores o lugar mais cheio de gente e complexo em línguas, modos que já estive e com todas e tantas especificidades o quanto fosse possível. Fiquei em silêncio e então percebi passos em minha direção, podia sentir sua respiração em meu rosto e então ela-todos fez algo curioso, me sacudiu, queria saber onde eu estava e então abri os olhos e a deixei entrar na lembrança mais intensa e vivida que tinha.

Estava na ONU, onde recebi juntos com os outros tripulantes, as honras por ter sido escolhida para a missão de coalizão mundial. Havia um mundo cultural dentro daquelas paredes, naquele dia.

Eu e ela-eu, agora estávamos em meio a uma multidão de pessoas. Me lembro de ter ficado curiosa com a fonética de alguns idiomas e olhar fixamente para os trajes de gala de muitos países, era um festival de modos de vida indo e vindo nos fones e tantas línguas faladas fora deles que ela-eu não sabia qual desejar, queria todos e todas. Me lembrei da ansiedade que senti ao andar entre as pessoas dali e ela-eu tentou fazer o mesmo, mas queria absorver tudo, cada trecho de linguagem, mesmo que eu não tivesse a compreensão e ali cometeu o erro “humano” da excitação desmedida, o único que reconhecia e esperava daquela espécie. Se esqueceu o bastante de mim, a ponto de eu conseguir perdê-la de vista na memória.

Aproveitei seu vislumbre e andei na direção contrária, havia uma porta no fundo, mas não sei se era real, não lembrava dela, mas era uma porta e saí de lá.

De repente, comecei a me sentir engasgada novamente, sufocada e então abri os olhos, estavam turvos pela espécie que ainda não havia me absorvido. Eu estava sobre a mesa, me debati e virei de lado para expelir aquela eu-todos.

Senti um asco arrebatador e passei a mão em minha face loucamente buscando tirar aquilo de mim, qualquer vestígio, mas não tinha muito tempo, pois não sabia o que aconteceria assim que a memória extasiante que dei a ela-todos fosse consumida por eles-todos ao redor e então, não sei porque, me veio o pensamento de que o nosso cérebro biologicamente é um poço de eletricidade e química, e que talvez causar um curto-circuito fosse algo interessante, e não hesitei, liguei o desfibrilador e joguei sobre ela-todos.

Não houve estouro, mas um belo choque psíquico, me encolhi na parede e vi na sequência todos os tripulantes tomados irem ao chão, o elo havia sido... eu não sei, só sei que descobri uma forma de impedi-los e de talvez, ter a tripulação de volta.

— Droga! Cadê, cadê ele, anda Adimu, procura... achei! – finalmente, o bendito taser da Abini, não que se possa achar normal levar algo assim ao espaço, mas ela o tinha para atordoar qualquer um que demonstrasse instabilidade emocional durante a viagem, o estávamos procurando antes e agora serviria ao meu propósito de neutralizar cada espécime sem matar a pilota chefe e os outros, caso ainda existissem dentro de seus corpos.

— Lá vai! – disse a mim antes de acertar um a um no chão, e então saí de lá mais que depressa. Tranquei a porta e observei por horas até me cansar e ir dormir na cabine, agora, munida de comida, água e esperança. Adormeci até ser dia novamente, em tese, já que onde pousamos e pela rotação, a noite durava umas cinco horas e acordei assustada ao ouvir gritos vindo da sala médica.

Saí da cabine quase sem respirar, o corredor não tinha iluminação e andei bem devagar. Vi que esmurravam a janelinha da sala e ao ver o desespero estampado no rosto deles senti alívio, estavam vivos, eram humanos, ao menos quatro deles. Abri a porta e eles saíram, nos abraçamos e choramos sem parar. Ainda éramos nós, extremamente felizes por estarmos vivos.

Levamos algumas horas até termos coragem de entrar na sala médica novamente. No chão e na mesa estavam os restos dos eu-todos que nos tomaram, e também, o corpo inerte de dois astronautas que após exames seguindo o protocolo médico foram declarados com morte cerebral, não havia o que fazer por eles, e seguindo a regra de contaminação, não poderíamos levá-los para casa. Acho que isso foi o que mais nos doeu, lembrar de seus sorrisos achando que tínhamos encontrado um segundo lar.
Dois dias após uma minuciosa conferência da nave em busca da presença de algum eu-todos, tivemos a certeza de que estávamos sós, os cinco, cada um com os seus pensamentos e dúvidas.

Apenas eu, Dra. Adimu fiz um relatório extenso do ocorrido, os outros não se lembravam exatamente de nada ou do contato, talvez porque tudo parecesse um sonho e por terem sido tomados em seus cômodos dormindo. Daí pode vir o motivo de não terem uma exata noção e três deles relataram que esqueceram várias lembranças pessoais, que acredito foram “distribuídas”. Já Abini têm flashes de ter falado consigo mesma e apenas eu, não sei dizer o porquê, resisti, algo foi diferente.

Talvez o sentimento de raiva tenha sido forte o suficiente para distrair e alimentar a curiosidade da eu-todos, talvez a quantidade de informações e complicações humanas inerentes ao meu ofício de compreender o humano ou pelo menos, entender seus feitos tenha distraído ela-eu, mas a verdade é que nunca vou saber como escapei.

Finalmente, após uma quarentena vigiada, era a hora de partir e nunca mais voltar ali. Abini tentou ligar os motores, mas a lembrei de que tinha me ensinado a mudar a ignição para impedir a fuga deles. Eu então lhe disse o código - 2408 e logo após, o sistema pediu a conferência de voz e a dei com alegria e satisfação em reconhecer...

— Sou humana!

 

 

 

Verão 2018 / Nebulosa: ficção científica escrita por mulheres

Lu Ain-Zaila

Formada em Pedagogia pela UERJ, de Nova Iguaçu, começou escrevendo poesias soltas e ideias, aprendeu muito com a escrita e leitura de não-ficção. "Aprendi com pessoas reais que lutaram e lutam por representatividade negra”. A autora se identifica com o poder da ficção científica e na Bienal de 2015 após não se encontrar, resolveu tirar suas anotações da caixa e assim nasceu a Duologia Brasil 2408, composta pelos livros (In)Verdades e (R)Evolução. No site oficial há artigos e contos disponibilizados para leitura.
Voltou à Bienal 2017 como escritora de sua primeira obra.

Página da autora brasil2408.com.br

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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