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Cruzamento

Conto de Lena Luiz

 

Discutiu com a mãe. Bobagem. Só porque ela recusava todas as sugestões de presente de casamento para a prima, sempre justificando que era caro demais. A certa altura, saiu-se com:

- Você nasceu achando que é rica e os fatos têm de fazer uma força enorme para convencê-la do contrário.

A definição não poderia ser mais acertada, e ela saiu de mau humor. Não por causa da mãe, mas pela força dos fatos. Ia murmurando xingamentos contra os outros motoristas, que eram lerdos, folgados, barbeiros... Um veio forçando a ultrapassagem e ela pensou: palhaço!

Ele, o palhaço, havia discutido com a esposa, que queria porque queria passar o feriado em Montevidéu! A certa altura, saiu-se com:

- Nós temos, sim, condições para pagar as passagens e o hotel. Você nasceu achando que é pobre e não quer se convencer do contrário, mesmo com todo o sucesso que conseguiu como Cabelinho.

A definição não poderia ser mais acertada, e ele saiu de mau humor. Não por causa da esposa, mas porque estava atrasado para mais uma apresentação do Cabelinho, hoje na abertura da campanha de vacinação da cidade.

A coincidência fez a Jogadora rir, e ela quis dividir a diversão com aquelas duas boas pessoas. Fez uma micro intervenção no algoritmo da garota, levando-a a olhar para o lado.

Ao perceber que o motorista que havia xingado de palhaço era, realmente, um palhaço, e bastante carrancudo, Geisa explodiu em gargalhada.
Gelson também olhou para o lado e, vendo que a moça ria de sua caracterização, imediatamente desfez a carranca – provocar riso sempre o deixava feliz.

Eles seguiram em frente, para um dia melhor, enquanto a Jogadora corria os olhos pelos carros que estavam parados no sinal vermelho, na avenida transversal, buscando outro objeto.

O Ressentido nascera feio. A avó o criara com moralismo hipócrita, altas doses de religiosidade eivada por crendices, muita sovinice e muita cupidez. Com ela aprendera também a puxar saco e a mentir com maestria. Usando todas essas ferramentas, conseguira muito dinheiro, que atualmente usava para comprar asseclas, amantes, servidores públicos e governantes.

Esse não tinha conserto. Só o quê a Jogadora podia fazer era uma intervençãozinha no algoritmo para aumentar sua vaidade e desprezo por todos. Com isso, talvez se descuidasse e deixasse solta, eventualmente, alguma ponta pela qual pudesse vir a ser pego e, quem sabe, detido.

O sinal abriu.

 

 

 

Verão 2018 / Nebulosa: ficção científica escrita por mulheres

Lena Luiz

Lena Luiz, que não tem orgulho de ser paulista, já apareceu nas páginas da Raimundo na edição Primavera 2015 com o conto Uma a mais e na edição Inverno-Primavera 2016 com
Pelos cabelos. Até o momento já obteve classificação ou premiação no Prêmio Monteiro Lobato de Contos Infantis – SESC DF; no Concurso de contos José Cândido de Carvalho; nos concursos literários da Fundart de Ubatuba SP e no Concurso Nacional de Contos de
Santo Ângelo – RS. Em outubro de 2017 o projeto Parede Branca do Espaço Cultural Beija-flor Cobra Criada, de Barra Mansa, RJ expos sua crônica O enigma de Andrômeda. Adoraria um dia publicar um livro infantil ilustrado. Enquanto não, fica em casa tecendo tramas com palavras ou fios – adora tricô e crochê.
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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