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A reconstrução

Conto de Moema Vilela

O homem está ajoelhado na banheira de água quente. O vapor sobe da cuba de louça branca, instalada no centro da sala como antigamente. Ele se debruça para alcançar a navalha no chão e volta a sentar sobre os joelhos.

Apesar do silêncio, a mulher no sofá ao lado dele está vendo televisão. Com atenção, é possível ouvir as vozes baixas e agitadas ecoando dos minifones na orelha dela. O ruído é recoberto pelo gemido rouco do homem, que depois se deita com as costas apoiadas na banheira. A água sobe até o peito. Ele recosta a cabeça na borda, molhando a ponta dos cabelos pretos. A água vai mudando de cor.

Larzo se mantém a dez passos da banheira. O orientador tinha sido enfático na instrução de evitar a curiosidade mórbida. Larzo se lembra de salvar o procedimento até ali, descrevendo a localização de seu corpo no cenário da reconstrução. Ele pede a criação de um memorial total dos sentidos físicos, incluindo audição, tato, olfato, paladar e visão. No item sentidos da mente, o único a completar de forma manual, ele marca CM, curiosidade mórbida, no ponto em que o seu progenitor apertou a lâmina contra o corpo para dentro da banheira, onde Larzo não podia enxergar.

Agora o homem também vai mudando de cor. Fica mais claro, diferente. Um pouco vago. Os olhos, ainda abertos, também ficam um pouco vagos. A água está rosa.

Larzo se aproxima da mulher que vê televisão. Ele se lembra de olhar para as pernas brancas dela, expostas no short jeans desfiado. Estava numa idade em que a sexualidade antiga já podia ser estimulada, o orientador tinha dito. Ele ia registrar no item mente que não sentira nada pelas coxas da progenitora, mas o som de um assovio se elevou e se misturou à fechadura da porta se abrindo. Uma velha entrou, fazendo barulho com uma dúzia de sacolas e a saia comprida, cintilante, que se agitava por cima de um coturno preto. Então aquela era sua avó. Tinha cabelos pintados de azul muito escuro, presos num coque no topo da cabeça. Ela parou de cantar ao ver o filho na banheira. Acomodou os pacotes no chão e foi até ele.

Nas reconstruções, os alunos não deveriam voltar tão longe no passado a ponto de não obterem identificação nem empatia com as cenas escolhidas. Tampouco deveriam ficar próximos demais de seu próprio tempo, a ponto delas representarem quase uma repetição da vida. Por isso Larzo se sentiu privilegiado, até esperto, por poder escolher a avó como o foco da reconstrução. Essa geração ainda podia ter resquícios das emoções antigas. A avó tinha deixado os pacotes no canto e caminhado até a banheira. Encostou a cabeça na bochecha do filho. Ficou ali, parada, setenta segundos. A avó também teria curiosidade mórbida de saber como era a pele dele perdendo calor, tépida e úmida do banho? A avó chamou os limpadores pelo pulsar e pediu para retirarem um corpo no Prédio Oito, do segundo departamento. Eles iam achar fácil, não tinha mais apartamentos ocupados naquele prédio além do dela.

- Muito obrigada – a avó disse antes de desligar.

Ela se agachou perto da mãe, que tirou os fones para escutá-la. A avó disse:

- Quero preparar uma coisa especial para comermos juntas. Deseja algo?

A mãe demorou, mas disse:

- Pão? Acho.

- O que você quiser comer – a avó disse, colocando uma música para tocar.

Larzo seguiu a velha até a despensa e depois até o quarto. O bebê estava dormindo. Larzo olhou para si mesmo, onze anos atrás. O som da campainha não acordou o segundo Larzo, mas chamou a atenção da avó. Eram os limpadores. Larzo encerrou a reconstrução, não ia extrair mais nada dela.

Tinha ficado ali duas horas e onze minutos. Deu-se por satisfeito.

Chamou Fannys no pulsar. Ela tinha deixado no modo exposto e dava pra vê-la fazendo uma reconstrução também, no aeroporto de Carrasco, antigo Uruguai, em 2061. Eles eram colegas, então aquilo devia ser o exercício de sentimento dela. Larzo se teletransportou até lá e perguntou se podia se juntar. Ela encerrou a reconstrução, não estava tendo sucesso mesmo, mas sugeriu que continuassem no cenário. Eles se sentaram num bistrô vidrado, suspenso no meio da pista de pouso. Fannys sugeriu que eles tomassem café de verdade. Larzo demorou para responder. Ela disse:

- Eu sei que é proibido.

- Ah, sim, o café era legalizado e acessível, é verdade. Isso foi até quando?

- Não – disse Fannys – Eu sei que é proibido ingerir substâncias do mundo reconstruído.

- É que atrapalha a reconstrução – disse Larzo.

- Se você preferir, eu não tomo.

Os dois concordaram que só de olhar já era curioso. As pessoas do passado jogavam água fervente sobre o pó marrom, serviam o líquido fumegante numa xícara e tomavam na frente de qualquer um. Fannys tivera um irmão viciado, que assistira muitas vezes tapando as frestas das janelas e jogando perfume ou acendendo incensos para que ninguém sentisse o cheiro do pó coado. Era mais difícil de esconder, mas, segundo ele, era o melhor jeito de tomar. Larzo disse que talvez tivesse curiosidade de provar o café em outro momento, mas estava levando a sério a reconstrução dessa vez. Não sabia por que, mas tinha ficado um pouco interessado na última tarefa.

- O que você tentou? – ele perguntou para Fannys.

Fannys contou que estava tentando chorar. Veio até o aeroporto porque verificou que a avó era pilota. Nesse dia, a avó fora contemplada no consórcio de bebês rejeitados pelos pais. Como a adoção de uma criança, ainda mais um recém-nascido, era um dos gestos mais inexplicáveis e não-passivos já naquela época, Fannys cogitou que a avó poderia ter ficado emocionada nesse dia. O dia em que adotara a mãe de Fannys. Ela então tentou acompanhar a avó por toda a manhã, mas não tinha encontrado nada que pudesse afetá-la. Quando Larzo pulsou, Fannys já tinha desistido da avó e estava tentando apenas aproveitar o cenário da reconstrução para exercícios sentimentalistas. Foi até o guichê e ensaiou dizer ao atendente de uma das companhias, cuja falta de reação, por não vê-la ou ouvi-la, poderia fazer Fannys sentir-se ainda mais só:

- Senhor, minha mala não veio e eu não tenho mais nada, roupas, livros, perfumes, tudo que eu tinha está perdido. O senhor não vai fazer nada?!

Fannys franzira os olhos e a boca, aprendera que manipular o corpo ajudava a conduzir a mente, mas logo começava a rir. “Senhor, minha mala não veio e eu não tenho mais nada, faça algo!”. Impossível levar a sério. Fannys não conseguia entender o homem primitivo.

Larzo se levantou e disse para Fannys, com o rosto desfigurado:

- Eu não consigo sentir nada. Fannys, estou tão vazio e triste!

Os dois ficaram se olhando com tristeza, pois isso também ajudava, chamava-se empatia espelhada, mas não foram muito longe no exercício: as bocas se torceram e os dois riram juntos e alto.

Aquilo era bom. Fannys e Larzo anotaram nesse ponto da reconstrução que tinham rido junto com outro ser humano, para analisar depois. A aterrissagem de um avião fez com que os vidros do bistrô tremessem, em luzes azuis e amarelas.

- E você, Larzo? – Fannys se lembrou de perguntar. – O que você fez?

Larzo tinha feito uma reconstrução incrivelmente boa, que podia servir para as cadeiras de História Antiga, Sentimentos Humanos e Sociologia. O sucesso da tarefa gerou a satisfação recessiva que incentivava a continuação, ele quis aproveitar isso antes que se esvaísse. Tinha ligado para Fannys porque teve a idéia de cruzar o exercício do instinto gregário com o estímulo da sexualidade.

Ao pronunciar as palavras, Larzo se deu conta de que a animação por ter ido bem no exercício o fizera se desconcentrar. Isso era um bom ou mau sinal, Larzo se perguntou. O fato é que ele errara ao dizer para Fannys que queria fazer também o estímulo da sexualidade, pois o seu orientador dissera que, nesse caso, a abordagem direta era menos eficiente que a abordagem velada. Fannys parecia saber disso, pois falou que algumas mulheres gostavam diferente.

- Você sabia no que eu estava pensando sem eu dizer – disse Larzo – Você é inteligente.

- Talvez eu só seja mais velha.

Fannys tinha até pequenas marcas no canto dos olhos. Ele tinha conseguido ver nas poucas vezes em que a viu sorrir, mas não sabia se o desejo de observar as rugas de Fannys era atração recessiva ou curiosidade mórbida.
- O que você quer fazer? – perguntou Fannys.

- Não sei. Vamos procurar algo aqui mesmo.

Depois de uma hora, Fannys e Larzo chegaram juntos a uma boa observação sobre os procedimentos metodológicos para vislumbrar na contemporaneidade a experiência do sentimento antigo. Examinar casais apaixonados era uma pista falsa. Embora o ápice da sentimentalidade parecesse a primeira opção a ser investigada, casais apaixonados eram distantes demais do presente para qualquer exercício de empatia espelhada, incapazes de estimular o mimetismo emocional. Faziam coisas absurdas, irracionais, fisicamente impensáveis. Produzir o aceleramento do batimento cardíaco com a visualização do nome de uma pessoa na assinatura de uma mensagem ou de um pulsar, por exemplo. Era algo tão incrível, quase sobrenatural, que fora considerado lenda até o surgimento das reconstruções. Antes, o consenso científico acreditava que os propalados efeitos dos sentimentos eram mistificação, instrumento do discurso dos tradicionalistas para convencer a população da potência prática dos sentimentos e do humanismo tradicional.

Larzo estava contente só de ter chegado a esse resultado, uma ótima observação, e estava prestes a se despedir de Fannys, quando viram um casal sentado, a sós, nos bancos de espera em frente à pista de pouso.

Era um cenário familiar, e isso era incomum.

Fannys disse que poderia ser a falta de pessoas, a amplidão do espaço. Larzo estava tentando estimular todos os elementos da psique antiga, inclusive a intuição, e achou que a cena tinha algo a mais. Apesar de quase não haver informações em episódios de história anônima, Fannys rastreou mensagens e registros do pulsar dos dois.

- Quer ouvir o último pulsar registrado? Acho que eles estão terminando o namoro.

Larzo refletiu que eles poderiam gerar um bom exercício de reconstrução para a tarefa, pois o rapaz e a moça eram jovens (força de empatia V), de uma idade entre a de Larzo e Fannys (força III), eram bonitos e limpos (força de IV a V). Fannys observou que o casal estava junto há um período longo no contexto temporal em que estavam inseridos, tinham começado a namorar há dois anos.

Larzo e Fannys se entreolharam. Era óbvio. Eram com os amantes tristes do passado que eles podiam dialogar emocionalmente. Casais se separando, com saudade de algo pouco específico, muita melancolia, vontade de estar junto oscilante, fragilidade e dúvida. Fannys e Larzo se sentaram do outro lado dos bancos. À distância, observaram a moça fitando os sapatos. O rapaz olhava os aviões estacionados. Perguntas estranhas, poucas falas. Imitando o corpo deles, Fannys e Larzo sentiram o impulso de dar as mãos. Quando um novo avião aterrissou e a voz no alto-falante anunciou o embarque do rapaz, Larzo e Fannys desfizeram o enlace. Larzo falou:

- Foi bom.

- Foi ótimo – Fannys disse.

- Vamos fazer algo de novo qualquer dia – Larzo se lembrou de dizer a Fannys, imitando o que se falava antigamente.

Apareceram vários riscos no final dos olhos de Fannys. Ela se lembrou de abanar para se despedir.

Larzo tinha muitas coisas para anotar, mas estranhamente sentiu vontade de ficar ali, na reconstrução de Fannys, então ficou. Teve a idéia de ir até o free shop pegar uma garrafa entre bebidas chamadas Jose Cuervo, J&B, Baileys, que ele não sabia o que eram, mas que estimulavam o sentimentalismo irracional e poderiam até diminuir a consciência de que ingerir substâncias do mundo reconstruído diminuía a precisão da reconstrução. No caminho de volta até os bancos, com a garganta reclamando daquele sabor igualmente irracional, Larzo refletiu que nunca tinha estado presente em uma reconstrução como se ela fosse a vida, o presente mesmo, e não o passado reconstruído. Era a primeira vez que ele tinha se encaixado no presente como tinha encaixado a mão na de Fannys, e Larzo sentiu um pouco de saudade desse momento, embora soubesse que isso não seria suficiente para gerar a vontade de repetição. Ter saudade era bom, porque era raro e significava algo irracional, e ele iria apresentar esse elemento ao orientador junto de seu memorial descritivo. Mas também era um pouco ruim, estranho e vago como os olhos que Larzo tinha visto mais cedo. Larzo ficou sentado num dos bancos até o sol filtrado pelo vidro diminuir sobre o carpete, as marcas da sombra cada vez maiores.

 

 

 

Verão 2018 / Nebulosa: ficção científica escrita por mulheres

Moema Vilela

Moema Vilela é escritora e jornalista, doutora em Letras pela PUCRS. Autora de Ter saudade era bom (Dublinense, 2014), finalista do Açorianos de Literatura, de Guernica (Udumbara, 2017) e Quis dizer (Udumbara, 2017). Publicou contos, poesias, artigos e ensaios em revistas literárias brasileiras e em antologias, como De tudo fica um pouco (Dublinense, 2011), Cobain (2016), Antologia Off-Flip 2016, A criação da memória (Edipucrs, 2014), a revista Raimundo, La Pecera, Revista Escrita, Jornal Vaia, Homo Literatus, Flaubert, fanzine O Borralho, entre outros. Graduada em Jornalismo (UFMS), mestre em Linguística e Semiótica (UFMS) e em Escrita Criativa (PUCRS), ministra cursos e oficinas de literatura e escrita criativa e faz serviços de revisão literária e pareceres críticos para escritores e para a Agência Cultural Lalô.

Página da autora
www.moemavilela.com

 

 

 

 

 

 

 

 

   

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