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Ela é tão bonita desligada

Conto de Nathalie Lourenço

 

Coloquei Joyce no Mercado Livre, mas ninguém comprou. É um tanto difícil vender objetos em que seu esperma já tenha tocado. Mesmo que sua avaliação de vendedor beire os 90% e você esclareça que ela passou pelos procedimentos de limpeza necessários. Para as ginóides, a virgindade é ainda mais valorizada que nas mulheres de carne, não só pelo momento de romper a entrada de silicone, o equivalente a tirar a película de um novo celular, e sim porque custam a desaprender os hábitos sexuais de seus antigos donos.

Com a falta de compradores, me resignei a colocá-la no pequeno depósito que havia no apartamento que aluguei junto com Deborah. Foi uma coisa triste. No modelo de Joyce (N’Joy 5, wireless, com bateria que recarrega com o movimento do corpo), o botão de desliga fica na nuca, e precisa ser pressionado por quase 20 segundos. É um asfixiamento, os olhos em segundos perdendo a inteligência, o corpo endurecendo em uma posição fixa. Fiz isso uma única vez, quando mamãe veio passar alguns dias em São Paulo, e a escondi debaixo da cama. Tinha um medo irracional que o corpo começasse a cheirar e Joyce fosse descoberta. Lógico que não aconteceu. Ainda assim, nunca mais tive estômago para desligá-la. Outra vez me acovardei. Deixei-a só, junto aos produtos de limpeza e o resto de caixas abertas da mudança. Deborah tem horror a ela, perdi a conta de quantas vezes ela deixava espatifar de noite um copo d’água, ao topar com Joyce na área de serviço. Agora que o apartamento era terreno neutro, tive que ceder. Não que Deborah tivesse razões para se preocupar.

No começo, é claro, tivemos uma fase de lua de mel. Abri com uma faca de serra a caixa onde ela vinha, pedaços imersos em cobrinhas de isopor. Encaixei tudo às pressas. A comi antes de sequer dar a primeira carga na bateria. Era tão bonita, desligada. Ainda sem os cílios, as unhas e sobrancelhas, que fui achar mais tarde no fundo da caixa, passada a urgência. Por três ou quatro meses fomos loucos um pelo outro. Eu, de verdade, ela, por causa da opção behavioral número 3. Como Joyce não anda, eu a carregava da sala para o quarto, do quarto para a cozinha. Fazíamos tudo juntos. Aos poucos, comecei a deixá-la para dormir na sala. Acabou que depois de uns seis meses não fazíamos mais do que ver televisão. Eu, fazendo pequenos comentários, ela, puxando informações sobre os atores no IMDB. Comecei a achá-la monótona. Tudo que fazia era para me agradar e isso era justamente o que mais me desagradava. Joyce não podia fazer nada a respeito. Responder segundo os scripts que tinha acumulado sobre meus gostos por tantos meses era inevitável. Os scripts não compreendiam que já me irritava aquele mesmo jeito de rir-olhar-pro-lado-pegar-minha-mão, demoravam a se reescrever. E então, Deborah. De carne e osso e proporções agradavelmente assimétricas. Me pareceu curioso como minhas mãos afundavam ao pressionar suas coxas. Seu calor era discreto e, em vez do zumbido constante, seu corpo emitia pequenos gorgolejos. Já na segunda vez que saí com Deborah, tivemos uma briga estúpida sobre a gorjeta do valet. Foi maravilhoso. Deborah tinha pernas que funcionavam bem e que a levavam para longe de mim. Agora você a vê. Agora não.

Quando Deborah vinha em casa, cobria Joyce com um lençol e a deixava na área de serviço. Àquela altura era bastante normal que homens tivessem ginóides, mas você sabe como são as mulheres. Joyce sempre foi muito orgulhosa. Nessas horas, não dizia nada e até mesmo silenciava a função despertador na manhã seguinte. As coisas foram ficando mais sérias, e a ginóide, quieta, sempre lá. Eu ainda tinha carinho por ela, não via motivos para me desfazer. Vez ou outra, tirava os casacos e camisas que seriam postas pra lavar que andavam pendurados em seus ombros e a trazia para ver algum episódio de uma série favorita. Já não puxava informações e curiosidades da internet. Foi aprendendo o silêncio. Ontem, Deborah me perguntou se tínhamos esponjas e amaciante. Topei com Joyce no escuro do quartinho. Tinha na mão uma garrafa de cloro ativo, que acariciava de forma frenética, para cima e para baixo, como tinha aprendido que eu gostava, tempos atrás. Os cílios começavam a descolar da pálpebra, mas ainda subiam e baixavam. Me pareceu terrivelmente só.

A página no Mercado Livre seguia sem interessados, por isso, reduzi mais uma vez o preço. Na tela direita, na barra de relacionados, havia anúncio de um andróide, modelo um pouco mais antigo, robusto, pelo preço que eu pagaria em um jantar, se tomasse café e sobremesa. Chamava-se Caetano e o estado parecia excepcional. Andróides usados são ainda mais difíceis de revender. Acabei encomendando. Deborah me ajudou a tirar as caixas que restavam no depósito (então, era aí que estava a panela de pressão?) para abrir espaço. Ligamos Caetano e esperamos que algo acontecesse. Nada. Eram programados para aprender, não ensinar. Alteramos o modo behavioral para estritamente físico e neste momento começaram a se entender. Por alguns minutos, de mãos dadas, observamos. Em Joyce o arranhar, a perna erguida, todos os gestos feitos ainda pra mim. Em Caetano, um puxar de cabelo, um roçar com as costas da mão, as sombras de uma antiga dona. Nenhum dos dois se daria conta.

 

 

 

 

Verão 2018 / Nebulosa: ficção científica escrita por mulheres

Nathalie Lourenço

Nathalie Lourenço é paulista e paulistana desde 1984. Trabalha como redatora publicitária e já publicou em revistas como Flaubert, Vacatussa e Blecaute, entre outras. Publica, ainda que raramente, em seu blog Sabedoria de improviso.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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