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S. S. Lonely Star

Conto de Raquel Parrine

Era 2030. Mais um programa da Nasa tinha sido desenvolvido para extrair metais pesados da atmosfera de planetas que ainda não encontramos. Uma equipe de astronautas tinha sido cuidadosamente selecionada, testada e capacitada especialmente para esta missão. Eram jovens astronautas – um dos objetivos da missão era renovar o corpo de viajantes do espaço, para garantir a continuidade dos projetos da NASA e também (secretamente) atrair a atenção da população jovem.

O lançamento foi transmitido via 15G para todas as pequenas telas do planeta. Sete caras jovens sorridentes se alinhavam na foto oficial que saiu nos jornais. Vários criticavam a legitimidade dessas incursões rumo ao desconhecido, uma atividade, dizia-se, praticamente colonial. Definitivamente ultrapassada.

Dois meses depois, com a opinião pública dirigida a outros novos temas – a sucessão do trono britânico, apesar do congelamento criogênico de Elizabeth II; o esvaziamento dos poços de petróleo da bacia de Santos; os gols do campeonato carioca – o S. S. Lonely Star finalmente atingiu a atmosfera do planeta que ainda não descobrimos. O destino manifesto, a frieza científica e o patriotismo cafona norte-americanos foram provavelmente os verdadeiros responsáveis pelo que se deu a seguir: diferentemente dos planetas do nosso sistema solar, a atmosfera deste era extremamente magnética (fato que passara despercebido pelas sondas enviadas anteriormente, já que seus cascos eram construídos de garrafas PET). O olhar do comandante foi mais eficiente do que uma ordem direta e toda a tripulação já tinha entendido, nessa fração de segundo, o seu destino.

O S. S. Lonely Star entrou, assim, em órbita do planeta desconhecido. Funcionava, efetivamente, como uma lua e, depois de vários meses, começou a desenvolver um comportamento parecido com um satélite de verdade. Fazia movimentos longuíssimos de rotação e translação, oferecendo a cada par de semanas uma face diferente para a superfície do planeta. Há alguns meses, o comandante havia desligado todos os motores e a nave estava, francamente, à deriva – o que trazia à tripulação, cansada dos esforços infrutíferos e do desespero, um sentimento vago de paz. Combinaram, depois do suicídio do comandante e do primeiro imediato, cujo amor secreto poderia ter colocado toda a missão em perigo, desligar os equipamentos que simulavam a gravidade na nave e trouxeram a deriva para dentro, com a mesma resignação heroica com que abraçavam seu destino.

A próxima medida foi fechar a maior parte da nave e tornar o acesso possível a apenas uma pequena parte – o suficiente para que os últimos quatro astronautas pudessem sobreviver com o mínimo. E, uma vez que a NASA já sabia muito bem da sua localização durante todo aquele ano dedicado à deriva, resolveram desligar também os aparelhos de GPS. A parte mais difícil foi escolher encerrar os programas de comunicação com o planeta Terra. Um dos astronautas se opunha veementemente: encontrava sua própria paz na voz da sua família e de seu filho recém-nascido, que já tinha crescido, aprendido a andar e crescer sem o seu pai. Este foi o terceiro e último dos suicidas, cujo corpo, combinaram, junto com o do comandante e primeiro imediato, foram lançados ao cosmo.

No espaço, os dias passavam devagar.

Mas depois de três anos, uma das turbinas entrou em combustão – causada pelos metais pesados da atmosfera e mais um par de elementos desconhecidos pelo homem –, o que levou a uma explosão de grandes proporções que inviabilizou a maior parte da nave. Além disso, a tripulação sofreu queimaduras gravíssimas e também a perda de membros e dores excruciantes. Os poucos medicamentos que traziam a bordo não foram suficientes para um tratamento extensivo, e dois dos astronautas não suportaram. Seus corpos foram lançados ao cosmo.

Depois do acidente, poucas máquinas ainda tinham alguma funcionalidade. Por isso, foi natural a decisão de desligá-las todas e efetivamente viver na deriva completa, sem luz, sem o zunido incessante dos processos. Resolveram fechar, inclusive, as janelas e seu espetáculo monótono. O S. S. Lonely Star era uma estrela escura e abandonada.

Os dois astronautas restantes, assim, iniciaram uma vida na escuridão e no silêncio. O contato das suas carnes deformadas pelo fogo era seu único sentido, e contavam com ele para realizar todas as atividades do seu cotidiano, que ia ficando cada vez mais lento, cada vez mais arrastado. Começaram a desenvolver o hábito de se tocarem para locomoverem-se pela nave, ainda planando, como um só corpo. O corpo do outro era uma superfície de contato e um impulso – um impulso lento e obsequioso, deformado e áspero. Com o passar dos anos, a dança que faziam pelo ar ia ficando cada vez mais sem propósito, como se obedecesse a uma lógica muito particular, complicadíssima, como as variáveis do universo. Era como uma meditação budista esquecida: cada inspiração era uma supernova e cada piscar de olhos um buraco negro, uma estrela cadente, uma constelação. Eram o quasar e o pulsar um do outro, o limite da existência e a razão da vida. Não eram mais homem e mulher, porque, no mundo em que viviam, isso não tinha mais sentido.

Desenvolveram também o hábito de dormirem juntos, numa posição muito estranha. Suas costas se tocavam, entrelaçados pelos pés e pelos braços – ela em posição fetal e ele esticado, como se a protegesse, ou apenas para firmar os dois no mundo. Esse conjunto gravitava pela nave, em silêncio, balançando ao sabor do acaso, obedecendo às mesmas forças que faziam da nave um satélite, impedindo-os de se moverem daquela órbita.

Não se sabe quanto tempo essa situação se manteve. E então, pelos mesmos motivos obscuros que fizeram o S. S. Lonely Star orbitar durante tantos anos em volta do planeta desconhecido, seguindo a mesma lógica complicadíssima do caos do universo, dos relacionamentos e do aparecimento das espinhas, por alguma razão completamente absurda, numa bela manhã de domingo, mediante total desconhecimento por parte da tripulação e sua dança cósmica, a nave da NASA aparece cortando os céus de Jacarta, em uma velocidade estupenda, que faz os técnicos a confundirem com um cometa. Aterrissam na água.

A equipe na NASA é chamada, avisada que destroços haviam cruzado a atmosfera – destroços que poderiam conter indícios do que havia acontecido com a última missão tripulada da agência, que havia partido há mais de 50 anos. Qual não foi a surpresa daqueles cientistas gringos afeiçoados ao cálculo e ao materialismo ao ver aqueles dois indivíduos, ainda jovens graças à matemática incrível da relatividade, entre os destroços.
E daí o óbvio: fotos, reportagens, teorias. Tudo anunciando o improvável, o incrível, o singular. A incrível história do capitão fulano e da tenente beltrana, dois seres humanos decididamente únicos, que passaram pelos horrores do abandono no absoluto cosmo, o pior dos destinos que qualquer um poderia pensar. E falavam-se de processos, de danos irrecuperáveis, de terapia para toda a vida. E do encerramento das atividades da NASA, do fim da busca do espaço, do desumano, do horror, meu deus, do horror.

A NASA, sempre altiva, contra-argumentava com palavras de heroísmo e patriotismo – o destino manifesto, o sonho americano, etc. –, afirmando que a missão, no final das contas, e graças ao treinamento soberbo que ofereciam ao seus oficiais, tinha sido, ao fim e ao cabo... um sucesso! Dois astronautas tinham sido bem-sucedidos na coleta de materiais no espaço e também, inesperadamente, em viver durante anos na órbita de outro planeta. Viva! Estariam a um passo da colonização de outros sistemas solares e da subsequente solução de todas as mazelas da sociedade.

Várias solenidades foram organizadas para condecorar os dois astronautas. E programas de televisão. E a reunião dramática com as famílias – ou melhor, com seus netos e primos netos. E prêmios. E recompensas em dinheiro. E luz do Sol. E sapatos e roupas. E tratamento para as queimaduras. E cirurgias plásticas. E som. A partir daquele momento, eles teriam... tudo.

Você podia ver pelos olhos dela, cortando a imagem da televisão, que alguma coisa estava errada, enquanto ele, com um sorriso aberto de clareamento artificial, segurando a mão dela displicentemente, tagarelava sobre as dificuldades que sofreram na vida do espaço, a falta de higiene, a escuridão, a solidão, enfim, o horror, meu deus, o horror. O cabelo dela brilhava em silêncio, naquele loiro pálido característico dos gringos do Sul.

Em seu pouco tempo de volta a Terra, ele já tinha recuperado a sua forma normal, com braços negros musculosos e um cabelo escuro forte e saudável. Tinha todos os elementos – o sorriso, as cicatrizes – de um verdadeiro herói e foi com eles que recebeu, ainda segurando displicentemente a mão dela, as medalhas especiais de honra de sei lá das quantas da NASA. E, ainda segurando a mão dela, foi conhecer os desconhecidos que se chamavam de sua família e que haviam sobrevivido todos esses anos com a pensão da sua morte. Foi segurando a sua mão que conheceu o presidente. Foi segurando a sua mão que compareceu a todos os jantares – apesar de não conseguir comer de toda aquela comida. Foi segurando a sua mão que deitou pela primeira vez em uma cama e sentiu o desconforto sinistro da gravidade, o destino de todos os humanos.

Ninguém sabia que aquele tocar-se não era uma demonstração da convenção terrena de duas pessoas que se amam. Ninguém sabia que o olhar penetrante dela, e sua aparente timidez, não eram sinal de afeto. Ninguém sabia que à noite, com as janelas fechadas, os dois não conseguiam dormir, nem no mais profundo breu. E que não era o horror, meu deus, o horror que os deixava sempre unidos, como um quasar e um pulsar, como o primeiro brilho de uma supernova.

 

 

 

Verão 2018 / Nebulosa: ficção científica escrita por mulheres

Raquel Parrine

Raquel Parrine passa os dias tirando neve da entrada de casa, apoiando o rosto na mão que segura a pá e olhando para o universo, lembrando de dias melhores. Quando não está reclamando do inverno, ela estuda e dá aula de literatura hispana na Universidade de Michigan, edita a Revista Raimundo, conta 5 braçadas de cada vez na piscina e toma cerveja artesanal a temperatura ambiente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

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