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Astroblemas

Coletânea de poemas de Samanta Esteves

 

astros
o planeta girando em torno
do sol nunca faz looping ou
inventa ponto fora da curva
que nos salve de viver.

* * *

 

anti-matéria
buracos negros não são tempos
em espaços são astros apagados
entrecortados estrelas em luto
com saídas para ontem
relógios parados com a sorte
de acertar duas vezes ao dia
e errar na esquina do sempre
são vaga-lumes enigmáticos
arrependidos de brilhar no escuro
que engoliram galáxias distantes
e foram iluminar outros universos
que nenhum deus se atreva
a acender a luz enquanto
deliro anti-partículas

* * *

 

distopia
estendia o dia no varal e era calor
quando a mim vieram perguntar se sabia
para onde partia uma gente ensandecida
que por aí andava a crer na vida
não sei, não vi - por aqui não passaram.
tampouco cri na vida de sol a sol
fui somente isso, pária dessa terra envilecida
capinar é minha ocupação, ocupei-me pouco
de olhar para além do chão
só me disseram de uma terra destruída,
outrora coberta de sal
onde vivia uma gente de partida
que cultivava uma loucura mas era
tão lunática a gente, tão sem cura.
devota de astros, crente em vazios
tal jeito inconsequente que foram embora
com passagens só de ida em direção
à morte capaz de inventar a vida

* * *



anunciação
não espere que inaugure
um universo
repleto de galáxias-possibilidade
por quê o faria? nem que as musas
tenham sussurrado nos meus frios
e surdos ouvidos
(tão cansados dos ritmos fáceis)
não espere que eu acenda a palavra
aqui não há luz
só uma espera profunda e grave
profunda e grave espera

* * *

 

à zero grau
na tundra quase sempre é sombra
os ursos dormem até esmaecer
a última penumbra até derreter
as camadas transparentes de gelo
tempo inóspito de vida ausente
como derreter uma pepita rígida
seu mistério de cristal petrificado
enlutada a lua vai saindo de cena
à francesa tal mulher de rua
despindo-se das estrelas e o palco
mal-iluminado revela
num instante um cenário riscado
de cometas tão logo apagados
do cume de um navio naufragado
entrevejo o cruzeiro do sul
Júpiter fugindo do degelo
por um triz e também não vejo
a ursa maior aproveitando o ensejo
despertando do encanto

*

as ondas ainda quebram tontas
na areia e em outra ponta do planeta
antes de ir embora eu me afogarei
na praia morna feito sereia

 

 

 

 

Verão 2018 / Nebulosa: ficção científica escrita por mulheres

Samanta Esteves

Samanta Esteves tem 25 anos, cursa Letras na USP e, atualmente, estuda a
produção poética de Ana Cristina César. Arrisca versos desde criança, tendo publicado Estilhaço, em 2017, pela editora Patuá (disponível para venda no site da editora). Mantém a página Estilhaços, onde divulga seus trabalhos, e escreve no blog À mercê do impossível, voltado a pensar a presença de mulheres na literatura:

Página da autora  facebook.com/poesiatrincada

Blog: feminismoliterario.blog
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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