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How to troubleshoot network connectivity problems

Coletânea de poemas de Thaís Moraes

 

É como uma internet ruim
Aquela pessoa que você quer navegar
Mas não tem conexão
Só aquele dinossaurozinho
Pulando
- mar inóspito
 

* * *


Finalmente chegar no lugar onde eu deveria estar
Depois do voo perdido
E do reagendamento
Com taxas
Como é que pode a gente sonhar
Sonhos fictícios
Com desesperos verdadeiros
(No idioma wolof, bom dia é:
Você dormiu em paz?)
 

* * *


Já faz tempo que a ciência nos deve
O teletransporte
Como é que ainda não podemos
Ser instantâneos
Se já somos telepáticos
Enquanto isso, seguimos
Exercitando onipresenças
E correndo
Para alongar a vida
& encurtar o mundo
- carreira
 

* * *


Era tão inútil o esforço dos funcionários da Ethiopian
Implorando para as pessoas seguirem
O caminho pontilhado
É que se tem tanto chão pisável
Essa imensidão de caminhos
Qual é - sinceramente - o atrativo
Do caminho pontilhado?
Os passageiros da Ethiopian eram bravos
Serenamente destemidos
Poderíamos dizer até: intrépidos
Não carregavam no semblante
Medo algum
De serem engolidos pela turbina.
 

* * *


Hoje de manhã um colega falou
Que estava voltando de Serra Leoa
E o avião fez uma aterrissagem forçada
Porque a turbina engoliu uns pombos
Que não devem ter seguido
O caminho pontilhado
Se é que a enormidade do céu
Não engole a própria ideia
De caminho.
 

* * *


Recarrego minhas baterias
Com o magnetismo alheio
Sabe aquela conversa de energia?
Pronto,
Minha existência é permitida
Por uma série de descargas elétricas
Recíprocas
Das quais dependo para viver em radiância
Em estado de fosforescência
Não é nada pessoal
Mas este planeta abriga muitas pessoas
Eletromagnéticas
E são elas que busco.
 

* * *


Estamos todos em trânsito
Carimbando a pele
Uns dos outros
Com vistos de três meses.
 

* * *


Como a gente transmite
O que a gente é
Se para a gente e tão óbvio
É tão autoevidente
Que nem se descola da pele

Quer dizer, como compartilhar
Fidedignamente
A matéria que nos compõe
Se, para nós, é a única possível

Olhe que maluquice
A gente não sai da gente
E ainda assim olha para fora
E espera ser compreendida
 

* * *


A gente passa muito tempo lutando
Pelo próximo lugar
Sem conseguir instalar-se no presente
(Você já ouviu falar do re-potting effect?)
Talvez a vida seja
Ignorar as instruções do aeromoço
Olhar para fora
E querer mais
- aterrissagem
 

* * *

As pessoas em geral são muito óbvias
O problema é que são óbvias
De jeitos diferentes
São como aparelhos eletrônicos
Com manuais de instrução
Em chinês ou vietnamita

Em geral, não requerem
Muita física quântica
Nem paranormalidades
Ou vidas passadas
Para uma leitura razoavelmente exata

Em resumo, são todas feridas
Abertas
Escancaradas
Com vários band-aids de bichinhos em cima

Para ler o manual
É só olhar pro passado: dessa vida mesmo
Dessa vida agora
Tentar tocá-lo
E as pessoas gritam
- leitura em voz alta
 

* * *


Métodos de cicatrização
Há vários
Homeopáticos ou não

Tem o merthiolate
Para desinfetar
Que hoje em dia não arde
Como ardia na infância

Aquilo que não cicatriza
Em último caso
A gente amputa
Mas parece que também não resolve

Dizem que um braço amputado
Continua doendo
Mesmo não existindo mais
Como um contorno de fantasma
Uma ausência senciente.
 

* * *


Até quando durará
A fase da conciliação
Até quando a luta
Pelo equilíbrio improvável
Entre a casa e o mundo

Você me explicou de máquinas
De movimento perpétuo

Na verdade, tudo teria movimento perpétuo
Se não houvesse
A resistência do ar
Ou o chão

Movimento perpétuo.
Imagina,
É impressionante
Mas deve cansar.
 

* * *


A pomba-gira disse um dia
Que eu precisava ir para:
os meus lugares de força
Eu pedi um exemplo e ela disse:
Cachoeira
Na hora não dei muita atenção
Mas a pomba-gira sabia das coisas
Porque tem 3 anos
Que essa frase volta

Eu mudei de continente
E essa frase veio comigo

Embora eu ache que meu lugar de força
Seja na verdade
O mar.

Naquela época eu precisava me reconectar
Com meu modem do umbigo
E ainda preciso - sempre
Verificar se essa conexão está ativa
Forte
Navegável
 

* * *


O importante é permanecer-me habitável.

 

 

 

Verão 2018 / Nebulosa: ficção científica escrita por mulheres

Thaís Moraes

Arriscando poesia em primeira viagem (tudo que publiquei antes disso foi acadêmico + jurídico). para mim, recife é realmente onde começa o mundo; mas ele continua em brasília e, mais recentemente, em dakar, no senegal. aqui tenho feito perguntas em listas e tentado ligar pontos, isto é, atribuir alguma linearidade a essa maluquice toda que eu nem sei por onde começar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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